Há muitos anos, fiz uma viagem. Uma psico-trip, talvez, uma pseudo viagem, talvez um passeio transdimensional, talvez uma hipno-passagem.
Fui ao centro da Terra. O centro geográfico, é claro: no cruzamento do meridiano verdadeiro de zero grau com o equador verdadeiro. O lugar se chamava... não dá para grafar, com estes caracteres, mas se pronuncia algo como Centre. Um país cujo código gráfico - que, por aqui, chamamos inadequadamente de alfabeto - só comportava doze símbolos, além de alguns sinais de pontuação. Um país que não tinha analfabetos, pois não tinha dinheiro, como conhecemos, de papel e de metal. Como todas as transações eram feitas por transferência de créditos, como hoje se faz com os cartões de crédito e débito, não existia a materialização do valor. Então, todos tinham que saber ler, para controlar seu patrimônio. Desde um pãozinho até uma viagem intercontinental, dos mais simples aos mais expressivos bens, tudo se adquiria pela transferência de créditos. Portanto, não havia a possibilidade de haver assaltos, seqüestros, tráfico de produtos ilegais... Imagine um sujeito chegar armado a um estabelecimento qualquer e gritar: "Transfira um milhão de créditos para a conta tal, ou será morto!". Em Centre também não existia presidente, nem governador, senador, prefeito, deputado, vereador... nada disso! Em primeiro lugar, porque todo candidato é primordialmente um corrupto. Imagine que aqui, no mundo real, conheci um funcionário público que pediu licença de seu serviço, sem remuneração, para se candidatar a vereador. Passou meio ano perturbando todo mundo, com uma musiquinha horrível, querendo que o elegessem. Não conseguiu. Mesmo assim, ouvi-o reclamando que tinha investido 20 mil reais na campanha. Alguém acredita que se investe tanto assim, mais os aborrecimentos, a auto-exposição, sem a intenção de se locupletar após a desejada vitória? Eu, não!
Bom, lá naquele país que visitei, não há cargos eletivos, nem candidatos.
Então, diriam, quem faz as leis? Ou será que lá também não existem leis?
Sim, respondo! Claro que existem! O que, afinal, são leis?
Leis são regras de conduta, idealmente combinadas consuetudinariamente! Em países como o Brasil, há vários tipos de leis, e existe uma hierarquia entre elas: Leis Federais, Leis Estaduais, Leis Municipais, Decretos, Medidas Provisórias (coisa mais ridícula!), Normas, Regulamentos, Regimentos, Estatutos e Regras. Umas valem mais do que as outras, umas pesam mais do que as outras, e, embora se digam democráticas, nunca o são. São normas ditadas por uma minoria, supostamente de representantes da sociedade, desconhecidas pela população em geral, muitas vezes, são leis contraditórias, muitas vezes, são impraticáveis, e são aplicadas, na maioria das vezes, para manter os pretensos representantes em seu status quo. Há até uma lei que garante aos tais legisladores a imunidade, dando-lhes o poder de usar e abusar de seus postos. Há outra que garante prisão privilegiada àqueles que cursaram uma faculdade! Outro despautério, pois, pela própria idéia do espírito das leis, poderia haver atenuantes para as pessoas que não têm condições de conhecer as leis, não às que, mais do que conhecer, têm o privilégio de redigi-las!
Na verdade, não existe democracia em países como o nosso, nem nos que o nosso tenta imitar, pela maneira que a legislação é elaborada e manipulada. E a mais absurda de todas as leis, é a que obriga os cidadãos comuns a votarem, a legitimarem os postos e os privilégios dos candidatos.
Bom, já são duas da manhã, e vou ter que me preparar para amanhã! Voltarei brevemente, para explicar a oclocracia de Centre.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
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