O Rei Risohho, muito bisonho, disse ao Rei do Noroeste:
"Vim aqui, com meu poderoso exército, para guerrear e capturar os soldados deste reino, a fim de que vão trabalhar para o meu povo."
"Oh, sim!" disse o Rei do Noroeste. "E quantos são os vossos guerreiros?"
"São todos os homens do Reino Rebordoso."
"Lamento muito, caro colega, mas não há soldados prontos no nosso reino..." disse o anfitrião, zombeteiramente, pois já percebera a inocência do pretensioso visitante.
"Como? Um reino sem soldados? Disseram-me que todos os reinos têm que ter soldados, e fazer guerra..."
"Sim! De fato, a maioria dos reinos têm seus exércitos, e nós também temos os nossos. Não são muitos, é claro, mas são capazes de guerrear. Só que, no momento, estão todos distantes, guerreando em outros reinos."
"Mas que pena!" queixou-se o Rei Risonho. "Fizemos uma viagem de tão longe, prontos para guerrear, e aqui chegamos, mas não encontramos ninguém para combater... De que valeram os esforços para preparar vinte mil homens para a guerra, equipá-los e treiná-los?"
"Não se preocupe, caro rei estranho: mandarei meus mensageiros avisar os soldados que estão distantes, e podereis enfrentá-los, quando chegarem, numa guerra justa. Mas com uma condição!"
"Pois não?" disse o Rei Risonho, mais alegre. "O senhor vai nos dar o prazer de uma guerra?"
"Sim, mas não garanto dar-lhe o prazer da vitória!"
"Claro, claro! Mas diga-me, caro rei: qual a sua condição?"
"O senhor disse que veio atacar nossa terra com vistas a fazer escravos para trabalharem em seu reino! Decerto, se seus homens vencerem a guerra, terão direito ao despojo! O que lhe proponho é a contrapartida justa: se meus soldados vencerem, os derrotados se tornarão nossos escravos, e o senhor se comprometerá a nunca, jamais, tentar uma revanche, por ter sido uma guerra equilibrada e justa!"
"Justo! Muito justo! Aceito suas condições! Em nome de meu reino, afirmo-lhe que esta é a única vez que guerrearemos contra o seu povo! Se perdermos, aqui ficaremos, como derrotados; se vencermos, aqui ficaremos como dominantes. E, se perdermos, mas alguns do meu reino conseguirem escapar e voltar à nossa terra, minha nação jamais tornará, em nenhuma outra época, a atacar vosso reino!"
"Muito bem! Eu também lhe prometo que, se vencermos, e alguém de seu exército conseguir escapar com vida e voltar para sua terra, não será perseguido, e estará livre! Todos os ministros e convivas presentes nesta casa são testemunhas de nosso acordo, para cobrarem, caso algum de nós dois deixe de cumpri-lo no futuro. Agora, pode voltar ao seu exército, enquanto eu mando meus mensageiros chamarem meus soldados, que estão longe."
O Rei Risonho se retirou do palácio do rei anfitrião e voltou para o seu exército, onde reuniu os anciãos e lhes comunicou o que ocorrera, e o acordo firmado.
Os anciãos acharam que o Rei tinha sido muito bobo, mas, para evitar uma rebelião, concordaram que palavra de rei é lei, e deixaram tudo como estava. Iriam esperar pelo exército adversário e encetar sua guerra. Até mesmo porque, se retornassem sem batalha, os soldados ficariam desmoralizados, o povo ficaria frustrado, e eles poderiam perder seu lugar de honra no Reino Rebordoso.
Esperaram por três dias, acampados ao longe da cidade, e acordaram, na madrugada do quatro dia, sob uma chuva de flechas, que caíam sobre eles, vindo de todas as direções. Dado o alarme, foi a maior rebordosa no acampamento dos pretensos invasores. Os soldados corriam para todos os lados, atropelando-se uns aos outros, espantando os cavalos, que também disparavam em todos os sentidos, e, após meia hora de ataque, antes mesmo que o sol nascesse, o acampamento dos rebordosos estava em silêncio, um caos completo.
Não havia nenhum homem de pé. Alguns tinham sido fatalmente atingidos pelas setas dos exércitos locais, que os cercaram e atacaram de surpresa. Alguns, tinham sido feridos, mas estavam vivos. Outros, estavam desorientados, mesmo não tendo sido atingidos. Ninguém entendia o que acontecera.
Só o Rei Risonho foi quem, tardiamente, compreendeu que tinha sido vitimado pela imprudência, por sua própria vaidade, e pela maliciosa ganância de seus anciãos.
Perderam uma guerra, para a qual não estavam preparados. Agora, não havia mais o que fazer.
Lembrando-se do acordo com o Rei do Noroeste, que tinha garantido não perseguir a quem escapasse do combate e voltasse para casa, o rei jogou fora sua coroa e seu elmo, tirou a armadura, abandonou a espada, e afastou-se, rastejando pela lama que se formara pelas pisaduras dos soldados e pelo excremento dos cavalos, desprovido de qualquer proteção. Rastejava entre os corpos caídos, as barracas de acampamento, que não tinham sido devidamente retiradas, e os cavalos, que, nervosos, ameaçavam pisoteá-lo. Quando algum dos soldados vencedores, que entravam no acampamento, em busca dos despojos, aproximava-se dele, deitava o rosto na lama, e se fazia de morto.
Passou todo o dia rastejando, esgueirando-se, até conseguir se afastar bastante do acampamento, penetrando, como um lagarto rastejante, imundo e repugnante, no bosque que havia no vale próximo. Naquele lugar, cansado e faminto, desmaiou.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
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