terça-feira, 16 de janeiro de 2018

sábado, 9 de abril de 2016

O Rei Raivoso IV O Rei Rubião, conhecido como Rei Risonho, acordou tarde. Verificou que sua suíte tinha sido conservada e bem cuidada durante sua ausência. A tina, na câmara interna, estava cheia de água morna, recém colocada. Tomou um longo banho, retirando todos os odores de lama e suor que acumulara durante a longa e infrutífera viagem, vestiu novas roupas reais, limpas e perfumadas, e desceu, pelas escadarias da torre, até a sala de jantar real. Apenas as serventes da cozinha se encontravam no local. Admiraram-se com a visão do rei, em roupas limpas. Mas não se negaram a servir-lhe o almoço. Não se atreviam a interpelar o rei, mas ele tomou a iniciativa e contou-lhes, de forma resumida, o que acontecera aos homens do reino, a vergonha passada, a derrota humilhante... e falou de um espírito que o trouxera de volta, numa grande ave, durante a noite. Assim, esperava reduzir os efeitos das inevitáveis especulações. Os outros nobres da corte, que costumavam almoçar junto com o rei, apareceram para o almoço, e se surpreenderam com sua presença. Ele falou pouco, dizendo apenas que contaria tudo na sala do trono, ao chegar a costumeira hora do despacho. Após o almoço, o rei retornou aos aposentos, pegando o cetro e a capa, indumentárias cerimoniais obrigatórias, sem as quais perderia o prestígio e a confiança de seus súditos, e desceu para o salão do trono. Estava cheio, e seu trono estava ocupado por um dos anciãos, conhecido pelo apelido de Vítor Velhaco. A aparição do rei, em trajes limpos, surpreendeu a maioria da audiência, embora alguns já tivessem sido avisados pelas fofoqueiras de plantão sobre sua volta. O ancião Vítor surpreendeu-se ao vê-lo, e não pareceu nada contente. O rei imaginou que aquele homem estava muito à vontade, liderando a população. Ficou de pé, diante do trono, esperando que o intruso percebesse que estava em posição inferior e desocupasse o seu lugar, o que aconteceu rapidamente. Ao sentar-se no trono, que lhe pertencia por direito (um direito que lhe fora imposto como obrigação, lembrava-se bem), contou, para todo o povo, os acontecimentos da malograda expedição, narrando as pequenas aventuras e contratempos da longa jornada, a encontro da Cidade do Noroeste, o desafio, e, ao final, a batalha, facilmente cedida por seu povo. Informou com pesar que os homens de seu reino tinham sido feito escravos, e como escapara sozinho. Falou do socorro que recebera, e do misterioso homem que o trouxera, voando num pássaro gigantesco e negro. Os súditos ouviam com atenção, sem piscarem os olhos. As mulheres e crianças ficaram muito tristes, com a certeza de que jamais veriam novamente seus pais e maridos. Nem todos estavam contentes com a volta do rei. Alguns, como o ancião Vítor e seus amigos, estavam muito descontentes. Revoltados, mesmo, pois já se consideravam os novos líderes do reino. Escondendo-se da multidão, um jovem ágil e esguio trepou numa coluna, com um arco e um jogo de flechas postos às costas, e, sem ser percebido pela multidão, apontou cuidadosamente a flecha, na direção do peito do rei, que também não o tinha percebido. Com braços firmes, e a pontaria bem estabelecida, o jovem soltou a corda, e a flecha voou, lesta e certeira, na direção do peito do Rei Risonho. Ninguém na multidão percebeu o lance, até que, subitamente, um vulto negro, mais alto que um homem normal, deu um grande salto, desde a porta aos fundos do salão do trono, e caiu no chão, ereto, diante do rei. Portava um enorme machado, todo preto, como suas vestes, e o fez zunir, num movimento em arco, atingindo a ponta da flecha (que ninguém tinha percebido até aquele instante), cortando-a ao meio, de comprido, da ponta às penas. Em dois outros movimentos, circulares e igualmente rápidos, cortou, no mesmo sentido, as duas metades que se formaram com o primeiro corte. O que até aquele momento tinha sido uma seta, agora eram quatro fiapos de madeira, que, enrodilhados, caíam levemente no solo. Todo se espantaram, sem nem mesmo terem percebido exatamente o que se passara, naquela fração mínima de tempo. Ouviam o sibilar da flecha se cortando, e viam o vulto preto que surgira de repente. Um enorme susto abalou todos os presentes. No momento seguinte, antes ainda que percebessem o que estava acontecendo, o vulto deu outro enorme salto, na direção da elevada e grossa coluna, onde estava firmado o atônito arqueiro. Agarrando a coluna com as pernas, firmando-se ali, o vulto de preto agarrou o rapazola pela gola da blusa, com a mão esquerda, enquanto a direita ainda segurava o machado, e deu outro grande salto, desta vez, para trás, apoiando um dos pés na coluna. Caiu no chão, em frente ao trono, com o machado na mão direita e o rapazola, que, diante da estatura do vulto, parecia um boneco de brinquedo, na esquerda. Soltou o garoto no chão e, sem dizer nenhuma palavra, girou o machado na mão direita e o brandiu em direção ao assustado arqueiro. O gume da arma negra, de um dourado intenso, pareceu soltar faíscas, enquanto cortava o ar, sibilando agudamente. As faíscas douradas se avolumaram tanto (à medida que o machado avançava na direção da vítima), que logo a cobriram totalmente, em meio à fumaça que se formou. Quando a fumaça, finalmente, se dissipou, o rapaz já não estava lá. Ninguém mais o viu. À vista de todos, desintegrou-se no ar, não deixando o menor vestígio de uma existência anterior. Em seguida, o vulto negro deu outro salto, na direção do trono do rei. Caiu atrás do trono, pouco à direita das costas do rei, e ali ficou, imóvel, em pé, segurando firmemente o machado negro. Ninguém entendia o que estava ocorrendo. Nem mesmo o rei. Somente o ancião Vítor Velhaco tinha uma ideia do ocorrido, já que o arqueiro fracassado, e agora desintegrado, era seu filho. O rapaz tentara assassinar o rei, contando que, após o sumiço dos adultos da cidade, por culpa do rei, a população apoiaria o ato, e consagraria o ancião no reino. A partir daquela tarde, a presença do vulto negro, sempre às costas e à direita do Rei Risonho, tornou-se uma constante. Por várias ocasiões, o vulto, apelidado pelo povo de Carrasco Carrancudo, usou seu machado, usando o gume dourado para fazer desaparecerem aqueles que manifestassem perigo ao rei, e o outro gume, prateado, para cortar todo e qualquer tipo de objeto, desde finíssimos fios de seda até as mais duras e volumosas pedras. Nem mesmo as gigantescas estruturas de aço resistiam ao corte afiado e veloz do machado. Pela força do medo, a população aprendeu a respeitar o rei, sempre protegido pelo seu mais fiel servo. Jamais ouviram a voz do carrasco, nem viram qualquer parte mínima de seu corpo. Não sabiam se era negro ou branco, qual a cor de seu cabelo ou de seus olhos. Não viam nem mesmo a ponta de seus pés, sempre oculta pelas sobras da saia que o cobria, desde a cabeça, numa única veste, como um funesto lençol.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Aja Conte-me sua verdade: Que seja boa e seja novidade! Não ande à-toa assim, pela cidade! Não se humilhe nem peça caridade! Não se entregue, assim, tão cedo... Não se reprima, não caia em degredo! Não se revele ou traia seu segredo! Faça seu sonho suplantar seu medo! Cumprimente o novo dia! Faça brilhar o olhar em euforia! Mude o seu jogo em doce rebeldia! Transforme seu gemido em melodia! Imponha sua fidalguia! Não seja escravo de sua covardia! Encare a luta com toda a ousadia! Ria da raiva com muita alegria! Faça-me a gentileza De me mostrar um pouco da beleza Que ainda existe em sua pureza, Sem desvaler a sua fortaleza! Desperte dessa apatia! Seja mais forte do que a tirania Do comodismo que em covardia Quer transformar a sua simpatia! Determine o seu destino! Seja mais forte, não seja um menino! Seja sereno no seu desatino! Não estacione: seja um peregrino! Saia de sua cadeia! Solte o furor que prende em cada veia! Liberte a frustração que lhe incendeia! Prenda seu alvo, firme-o em sua teia! Aja com toda a coragem! Não se acomode, não perca a viagem! Deixe sua marca em cada passagem! Espalhe aos ventos a sua mensagem! Sempre que apanhar, aprenda! Não se exaspere, nunca se arrependa! Valha seu preço, não se ponha à venda! Seja o herói de sua própria lenda! Cumpra seu papel na História! Faça patente a sua memória! Seja valente, assuma a vitória: Você nasceu para ascender à Glória! Lute, mude, lute, mude, lute, mude, lute, mude... Ande, mande, ande, mande, ande, mande, ande, mande... Ganhe, apanhe, ganhe, apanhe, ganhe, apanhe, ganhe, apanhe... Veja, seja, veja, seja, veja, seja, veja, seja... Diga, siga, diga, siga, diga, siga, diga, siga... Voe, doe, voe, doe, voe, doe, voe, doe... Grite, dite, grite, dite, grite, dite, grite, dite... Sonhe, acorde, sonhe, acorde, sonhe, acorde, sonhe, acorde... Escolha, colha, escolha, colha, escolha, colha, escolhe, colha... Venha, tenha, venha, tenha, venha, tenha, venha, tenha... Recuse, acuse, recuse, acuse, recuse, acuse, recuse, acuse... Convença, vença, convença, vença, convença, convença, vença... Transforme, informe, transforme, informe, transforme, informe... Esquente, aguente, esquente, aguente, esquente, aguente... Sacuda, acuda, sacuda, acuda, sacuda, acuda, sacuda, acuda... Apite, agite, apite, agite, apite, agite, apite, agite, apite... (Samba - Olinda, 18 de novembro de 2001)
Aja Conte-me sua verdade: Que seja boa e seja novidade! Não ande à-toa assim, pela cidade! Não se humilhe nem peça caridade! Não se entregue, assim, tão cedo... Não se reprima, não caia em degredo! Não se revele ou traia seu segredo! Faça seu sonho suplantar seu medo! Cumprimente o novo dia! Faça brilhar o olhar em euforia! Mude o seu jogo em doce rebeldia! Transforme seu gemido em melodia! Imponha sua fidalguia! Não seja escravo de sua covardia! Encare a luta com toda a ousadia! Ria da raiva com muita alegria! Faça-me a gentileza De me mostrar um pouco da beleza Que ainda existe em sua pureza, Sem desvaler a sua fortaleza! Desperte dessa apatia! Seja mais forte do que a tirania Do comodismo que em covardia Quer transformar a sua simpatia! Determine o seu destino! Seja mais forte, não seja um menino! Seja sereno no seu desatino! Não estacione: seja um peregrino! Saia de sua cadeia! Solte o furor que prende em cada veia! Liberte a frustração que lhe incendeia! Prenda seu alvo, firme-o em sua teia! Aja com toda a coragem! Não se acomode, não perca a viagem! Deixe sua marca em cada passagem! Espalhe aos ventos a sua mensagem! Sempre que apanhar, aprenda! Não se exaspere, nunca se arrependa! Valha seu preço, não se ponha à venda! Seja o herói de sua própria lenda! Cumpra seu papel na História! Faça patente a sua memória! Seja valente, assuma a vitória: Você nasceu para ascender à Glória! Lute, mude, lute, mude, lute, mude, lute, mude... Ande, mande, ande, mande, ande, mande, ande, mande... Ganhe, apanhe, ganhe, apanhe, ganhe, apanhe, ganhe, apanhe... Veja, seja, veja, seja, veja, seja, veja, seja... Diga, siga, diga, siga, diga, siga, diga, siga... Voe, doe, voe, doe, voe, doe, voe, doe... Grite, dite, grite, dite, grite, dite, grite, dite... Sonhe, acorde, sonhe, acorde, sonhe, acorde, sonhe, acorde... Escolha, colha, escolha, colha, escolha, colha, escolhe, colha... Venha, tenha, venha, tenha, venha, tenha, venha, tenha... Recuse, acuse, recuse, acuse, recuse, acuse, recuse, acuse... Convença, vença, convença, vença, convença, convença, vença... Transforme, informe, transforme, informe, transforme, informe... Esquente, aguente, esquente, aguente, esquente, aguente... Sacuda, acuda, sacuda, acuda, sacuda, acuda, sacuda, acuda... Apite, agite, apite, agite, apite, agite, apite, agite, apite... (Samba - Olinda, 18 de novembro de 2001)

Aja

Aja Conte-me sua verdade: Que seja boa e seja novidade! Não ande à-toa assim, pela cidade! Não se humilhe nem peça caridade! Não se entregue, assim, tão cedo... Não se reprima, não caia em degredo! Não se revele ou traia seu segredo! Faça seu sonho suplantar seu medo! Cumprimente o novo dia! Faça brilhar o olhar em euforia! Mude o seu jogo em doce rebeldia! Transforme seu gemido em melodia! Imponha sua fidalguia! Não seja escravo de sua covardia! Encare a luta com toda a ousadia! Ria da raiva com muita alegria! Faça-me a gentileza De me mostrar um pouco da beleza Que ainda existe em sua pureza, Sem desvaler a sua fortaleza! Desperte dessa apatia! Seja mais forte do que a tirania Do comodismo que em covardia Quer transformar a sua simpatia! Determine o seu destino! Seja mais forte, não seja um menino! Seja sereno no seu desatino! Não estacione: seja um peregrino! Saia de sua cadeia! Solte o furor que prende em cada veia! Liberte a frustração que lhe incendeia! Prenda seu alvo, firme-o em sua teia! Aja com toda a coragem! Não se acomode, não perca a viagem! Deixe sua marca em cada passagem! Espalhe aos ventos a sua mensagem! Sempre que apanhar, aprenda! Não se exaspere, nunca se arrependa! Valha seu preço, não se ponha à venda! Seja o herói de sua própria lenda! Cumpra seu papel na História! Faça patente a sua memória! Seja valente, assuma a vitória: Você nasceu para ascender à Glória! Lute, mude, lute, mude, lute, mude, lute, mude... Ande, mande, ande, mande, ande, mande, ande, mande... Ganhe, apanhe, ganhe, apanhe, ganhe, apanhe, ganhe, apanhe... Veja, seja, veja, seja, veja, seja, veja, seja... Diga, siga, diga, siga, diga, siga, diga, siga... Voe, doe, voe, doe, voe, doe, voe, doe... Grite, dite, grite, dite, grite, dite, grite, dite... Sonhe, acorde, sonhe, acorde, sonhe, acorde, sonhe, acorde... Escolha, colha, escolha, colha, escolha, colha, escolhe, colha... Venha, tenha, venha, tenha, venha, tenha, venha, tenha... Recuse, acuse, recuse, acuse, recuse, acuse, recuse, acuse... Convença, vença, convença, vença, convença, convença, vença... Transforme, informe, transforme, informe, transforme, informe... Esquente, aguente, esquente, aguente, esquente, aguente... Sacuda, acuda, sacuda, acuda, sacuda, acuda, sacuda, acuda... Apite, agite, apite, agite, apite, agite, apite, agite, apite... (Samba - Olinda, 18 de novembro de 2001)
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quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Árvore Da Vida

A Árvore da Vida
O ponto azul, pequeno e distante, era a única visão que se tinha a partir da nave.
A admirou aquela maravilha, aquele fenômeno único no Universo. De onde se encontrava, não era possível distinguir nem a menor indicação de luz. Não havia nenhuma constelação, por distante que fosse, que fizesse lhe chegar aos olhos a mínima réstia de luz, o menor sinal de uma estrela, nebulosa, cometa, ou qualquer indicação de existência.
A se afastou da vigia circular, lentamente, e iniciou seu ritual, que executava cada vez que descobria um novo mundo a explorar.
A era pioneiro na arte de descobrir mundos.
Percorreu vagarosamente todo o grande corredor central de Vespúcia, a nave que adquirira há mais de quarenta anos, e que rebatizara com o nome do personagem que se tornara o nome de todas as terras descobertas, em 1492, por Colombo, no seu globo natal: Américo Vespúcio.
Verificou atentamente os sistemas elétricos, todos os mostradores dos painéis, que diagnosticavam todas as condições da nave e do módulo conjugado. Depois, passou para a ala a que chamava de museu, uma ampla área, que compunha três quartos de todo o ambiente interno da nave. Ali estavam separados em gaiolas de vidro, climatizadas e iluminadas convenientemente, os vários espécimes de plantas e animais capturados nos mundos que descobrira, ao longo dos últimos quarenta anos. Plantas dos mais diversos aspectos, como as ervas flutuantes de Agnus, seu primeiro descobrimento depois de Eden; as plantas pétreas de Ermus, o planeta sem vida aparente, na constelação de Cassiopeia; Gnomus, o quadrúpede alado capturado em Ônix... Eram setenta animais e trezentas plantas diferentes. Entre estas, havia desde microscópicas plantas aquáticas, até árvores gigantescas, de mais de dez metros de altura. De todas, a que mais inspirava cuidados e era Gula, a planta que ele tinha trazido do planeta Vorax. Era uma planta que se alimentava de todas as outras formas de vida. Estendia tentáculos que se alongavam, finos e pegajosos, e absorviam, utilizando as ventosas das extremidades, as células e moléculas de todas as estruturas vivas ao seu redor. Era uma planta tremendamente resistente e voraz, e se alimentava da energia luminosa. Sob a luz dos refletores que estavam ininterruptamente acesos no seu box de aço transparente, ela parecia uma bela e inocente planta de jardim, com folhas azuis e verdes, flores de um vermelho escuro muito vivo e caules amarelos, quase dourados, que não cessavam de se mover, em todas as direções, como se fossem pequenas serpentes. Na ausência da luz, porém, ela se tornava selvagem, e seus caules se estendiam, buscando a energia de outras formas de vida, sugando cada molécula, até extinguirem totalmente o corpo das vítimas, fossem outras árvores, animais, deu qualquer porte, ou microorganismos. Na sua voracidade, a terrível planta liberava um ácido que era capaz de digerir até os mais sólidos metais, desde que estivessem ionizados.
A conferiu que estava tudo em ordem, que Gula estava perfeitamente alimentada de luz e não oferecia risco, e voltou para a cabine, o habitáculo em que passava a maior parte do tempo, sozinho, ora pilotando a nave, ora consultando os telenavegadores, no afã de descobrir novos planetas. Planetas... ele não gostava daquela palavra, que sugeria o diminutivo da palavra plano. Ora, os globos habitados que ele conhecia eram esféricos ou aproximadamente esféricos, embora, conforme seu volume e formado, pudessem parecer planos aos olhos de quem estivesse pousado em sua superfície. Portanto, a palavra planeta, pequeno plano¸ não se lhes aplicava. Preferia designá-los por mundos, ou globos, diferenciando-os, conforme o volume e a massa, de globículos a globázios. Ele não se preocupava com a aceitação ou rejeição de seus neologismos, uma vez que só os descrevia para si mesmo. A era um solitário por opção. Se tivesse que definir-se a qualquer outra pessoa, far-se-ia chamar de eremita sideral.
Após verificar as condições de segurança, passou para o segundo passo de sua rotina: alimentar-se e descansar.
Preparou para si mesmo uma refeição, com as ervas e frutos que cultivava na própria nave, e estendeu o colchão, onde costumava ter longos períodos de repouso, que depois seriam compensados com períodos ainda maiores de vigília. E deitou-se, relembrando antigas aventuras, até envolver-se nas brumas do sono profundo. Acostumado àquela rotina, e à quase total ausência de gravidade, tinha condicionado seu corpo a vigílias de trinta horas, compensadas por períodos de sono de seis horas. Seu medidor de horas tinha bateria nuclear, que mantinha uma pulsação constante de trinta gigahertz, dando exatidão às frações de tempo. Não havendo dias ou noites regulares na nave, e tendo passado por vários globos, cujos ciclos de luz e dia variavam muito, conforme a velocidade de suas órbitas, e a distância em que se encontravam das estrelas centrais (no caso dos globos que orbitavam ou recebiam energia de estrelas), condicionara-se, por conta própria, ao longo de muitos anos de prática, a alternar os períodos de sono e de vigília, dormindo um quinto do tempo de cada vigília anterior. Portanto, ajustou seu despertador e estirou-se no colchão de ar, dedicando-se a recordar algumas das muitas aventuras pelas quais passara nos últimos quarenta ou oitenta anos, desde que deixara Eden.
O treinamento mental de A o levava a jornadas mnemóticas reversas, ou seja, começava recordando os fatos mais recentes, e ia regredindo racionalmente, de forma gradual, até sua infância. Assim, seus primeiros pensamentos exploravam sua memória mais recente, de quando estivera no estranho globo a que denominou Vorax, habitado por seres trafegáveis, comparáveis aos chamados animais, na sua longínqua Terra, que tinham capacidade de se locomover, migrar, sair de um lugar para outro, na biosfera de seu globo, e os seres fixos, que poderiam equivaler às plantas, árvores gramíneas e arbustos... seres que, embora não pudessem transitar, nasciam, cresciam, fecundavam-se, reproduziam-se e morriam, características primárias dos seres vivos. Naquele mundo, verificou a grande força da planta chamada a que chamou de Gula, ou Gulosa, cuja característica era alimentar-se continuamente. Nos períodos de luz, quando a face de seu mundo estava voltada para seu Sol, aquelas plantas se mantinham em repouso, acomodadas, como se estivessem dormindo. Naqueles períodos, eram vulneráveis aos ataques dos “animais”. Nos períodos noturnos, porém, aquelas plantas se tornavam predadoras vorazes e invencíveis, estendendo seus ramos estreitos como tentáculos, que atacavam os pequenos animais e outras plantas, dissolvendo suas moléculas com o ácido que era expelido pelas ventosas, contidas nas pontas dos ramos, e sugando toda a matéria, agora morta, que passava a fazer parte de sua própria constituição física. Após estudá-la, e tendo conseguido escapar de seus ataques, A conseguiu capturar uma pequena muda daquela planta, guardando-a em seu pomar particular, junto com as outras várias espécies vegetais extraídas de vários globos encontrados e explorados por ele no Espaço.
Continuando na sua viagem regressiva mental, o astronauta solitário se recordou de No, o planeta sem corpo, habitado por formas imateriais, apenas energéticas, de vida, que tentaram capturar seu corpo, disputando entre si aquela relíquia, pois precisavam de um corpo vivo, dotado de cérebro, para poderem escapar daquele mundo de horror e tentar se comunicar e ter uma nova vida em algum outro mundo. Após perceber o apuro em que tinha se envolvido, A matara seu próprio corpo, liberando sua mente no espaço etéreo, para poder combater as outras mentes e vencê-las. A batalha durou quarenta anos, durante os quais seu corpo ficara cristalizado dentro do congelador de sua nave. Foi uma longa batalha, da qual saiu vitorioso, retornando ao corpo, ressuscitado pelos equipamentos que já tinha disposto para aquela função, e livrando-se, finalmente, daquele lugar perdido no Cosmos. Ele tinha consciência de que era, agora, um homem de três idades. Seu corpo estava vivo há cento e vinte anos, desde que fora gerado no ventre de sua mãe terrestre, mas suas células apresentavam o aspecto, a resistência e as condições de saúde de um homem de oitenta anos, pois sua escapada de No ocorrera há quarenta anos, e seus conhecimentos, somando o que já conhecia antes de entrar naquela aventura ao que aprendera ao permear e ser permeado por aqueles milhões de mentes sem corpos que se digladiavam na disputa por um corpo, poderiam ser comparados aos conhecimentos de um homem que tivesse estudado, vivenciado e experimentado conhecimentos de centenas de mentes, ao longo de quinhentos anos ou mais de evolução cognitiva.
Lembrou-se, ainda, de Platus, o mundo mecânico, habitado por seres de metal, movidos por energia elétrica, provinda de diversas fontes, que gozavam de uma vida alegre e criativa, desprovida de emoções, e sendo, por isso mesmo, seres felizes, desprendidos, que se realizavam ajudando uns aos outros, sacrificando seus próprios corpos metálicos para socorrer os corpos de seus vizinhos, com suas mentes, alimentados por cérebros de cristais de carbono, ouro e silício, sempre crescendo e aprendendo mais. Não tinham medo, nem raiva, nem egoísmo, nem inveja, nem a confusa emoção denominada amor, que fomenta tantas outras emoções contraditórias, como ciúmes, inveja, despeito e ódio. Fora muito agradável o período em que passara naquele sólido e seguro mundo, de onde saíra com pena, mas impulsionado pela obrigação de continuar a missão a que se havia proposto: procurar por todo o Universo, ou pelos universos possíveis, até encontrar novamente sua amada Anyara.
Lembrou-se de muitos outros globos explorados ao longo dos anos, a bordo de Vespúcia, até chegar, mentalmente, a Eden, o primeiro mundo que explorou, e onde plantou as primeiras sementes de vida humana. Lembrou-se de Eva, sua comandante na nave KX74, com quem teve um envolvimento íntimo muito apaixonado, tórrido mesmo, ao ponto de se desviarem do rumo e da missão a que tinham sido mandados pelo governo terrestre, vagando a esmo pelo espaço, ao longo de correntes hadrônicas, até chegarem, levados pelos labirintos do universo das Probabilidades, ao pequeno globo, filhote orbital da estrela chamada Daedalus. Sua nave caiu naquele mundo, onde habitavam animais de várias espécies, dos mais diversos tamanhos e biótipos; onde havia uma biodiversidade vegetal e animal tão vasta e rica, que jamais poderia ter sido sonhada pelos humanos terrestres. Passaram sete anos naquele lugar, gozando as delícias de um verdadeiro paraíso, e lá tiveram seus primeiros filhos. Ele, que outrora se chamara Adão Protázio, e ela, Eva d’Achino, tornaram-se os primeiros pais de uma nova Humanidade. Sete anos depois, quando já tinham gerado uma primeira família de humanos semelhantes, tiveram um primeiro desentendimento e, para não haver violência, que viesse a influenciar seus filhos... para que aquela nova Humanidade não fosse ser influenciada, no futuro, pelas paixões que tornaram a primeira Humanidade, a terrestre, tão dada à violência, Adão consertou a nave e partiu, com o intuito de nunca mais voltar. Seu objetivo agora era procurar por Anyara, sua primeira mulher, cujo destino era, pelo menos até onde ele sabia hoje, totalmente ignorado.
Lembrou-se de Anyara, sua primeira mulher, a única que vivera na sua intimidade por quase dez anos. Fora ela quem o influenciara para interessar-se pela Física e pelas ciências afins. Engenheira, física, inventora e artista, Anyara era uma daquelas personalidades que o senso comum chamaria de impossíveis. É comum julgar-se que pessoas ligadas às ciências não tenha, ou pelo menos não expresse, sentimentos. Para muitos, os sentimentos são manifestações de falta de racionalidade, e a razão é a única característica humana que pode prevalecer no desenvolvimento tecnológico e social da Humanidade.
Pois Anyara contradizia todas as regras do senso comum.
Para ela, somente os sentimentos e os sonhos possibilitaram toda a História do Desenvolvimento Humano, fosse pelas necessidades de afetividade, que levavam homens e mulheres a se juntarem, a constituírem seus lares, primeiro nas cavernas, depois, nas aldeias, e, finalmente nas cidades; fosse pela necessidade de sobrevivência, que levou à criação de vários artefatos, principalmente das armas e dos meios de transporte e comunicação; fosse pelo prazer da estética, que desenvolveu as artes, nas suas mais diversas manifestações.
E os sonhos eram a mais profunda manifestação mental dos desejos, expressão maior da sentimentalidade.
Foi com essas idéias que Anyara se interessou pela Física, labutando incansavelmente em busca de uma invenção que solucionaria muitos dos problemas atuais da Humanidade, e que poderia acabar com os acidentes nos transportes, que matam diariamente uma grande parcela da população, em vários lugares, assim como possibilitar a entrega, em prazos curtíssimos, de remédios, de órgãos humanos para transplantes, de correspondências e objetos vários, desde os mais elementares até os mais urgentes, que influenciassem definitivamente o maior desenvolvimento: o teleporte.
Após muita pesquisa e debates, o sonho de Anyara finalmente foi reconhecido, e ela conseguiu desenvolver vários artefatos, que finalmente possibilitar o transporte veloz. Primeiramente, foram transportados átomos; depois, graças à metodologia implantada por ela, foram transportadas molecular; depois, partes inteiras de material; então, vieram os objetos, desde simples botões e moedas, objetos de corpo único, até objetos mais artesanais, compostos de várias peças. Depois, vieram os animais. No começo, houve vários acidentes, com os pobres seres chegando deformados, agonizantes, do outro lado do terminal de transporte, até que, pelo crescente desenvolver das técnicas, materiais e métodos, conseguirem transportar seres vivos, completos e saudáveis. Chegou a hora do transporte de pessoas.
Houve, naquele momento, uma reação muito forte, tanto da sociedade quanto de alguns cientistas, pelos riscos que tal aventura poderia trazer. Mas Anyara se manteve firme na defesa do transporte de pessoas por aquele meio. Seus argumentos se tornavam mais fortes e mais razoáveis, à medida que as críticas surgiam.
Pelo uso do teleporte, poder-se-ia conduzir uma pessoa acidentada, no momento imediato do socorro, diretamente para o leito de emergência no Hospital, sem a perda de tempo e as interferências do trânsito, por onde uma ambulância circularia. Evitar-se-ia até mesmo a eventualidade de um acidente de trânsito que atingisse a ambulância. Um órgão doado para transplante também chegaria imediatamente após a morte do doador, diretamente à sala de cirurgia, onde o receptor estivesse esperando. Depois viriam os objetos, as encomendas expressas das mais diversas naturezas. Uma força policial inteira poderia se deslocar, por exemplo, para dentro do ambiente onde estivesse ocorrendo um assalto ou seqüestro. O transporte de cargas seria mais seguro, evitando os crescentes assaltos aos veículos. O risco de acidentes aéreos, envolvendo dezenas de pessoas em um único evento, se acabaria. Mesmo no caso de um acidente fatal, só seria atingida a pessoa envolvida, e não um grupo maior. Além disso, havia a limpeza ambiental. O teleporte não emitiria as toneladas de fumaça que os meios de transporte tradicionais emitem ininterruptamente na atmosfera terrestre.
A força dos argumentos acabou levando Anyara à vitória, e a Comunidade Mundial concordou com a experiência. Surgiu, então, outro obstáculo: quem seria o primeiro voluntário para a experiência? Chegara a pensar em impor a algum criminoso condenado a ordem de se apresentar para ser teleportado de uma prisão a outra. Mas novamente os céticos levantaram outro questionamento: o criminoso poderia passar por algum tipo de desvio, causado por uma interferência de ondas eletromagnéticas, e acabar sendo transportado para algum outro lugar, onde estaria livre, deixando de cumprir sua pena.
Naquele momento, Anyara se apresentou como voluntária. Houve muita contestação, pela importância que ela tinha no processo, como uma das principais cientistas envolvidas, e pelo conhecimento que ela tinha do processo. Mas ela passou a chave de todos os seus arquivos, nos quais relatava até os menores insights a respeito da técnica, para o seu secretário de equipe, discutindo longamente com ele e deixando-o a par de absolutamente tudo o que se sabia sobre o assunto. Finalmente, foi aprovada, e, diante da equipe científica, numa tarde muito movimentada, transmitida por todas as principais emissoras de televisão do mundo, ela entrou no terminal, no laboratório da Universidade em que ensinava e comandava as pesquisas, de onde seria mandada diretamente para o outro terminal, instalado na nossa casa, a trinta quilômetros de distância.
Adão estava presente, em casa, aguardando a sua chegada, diante de uma ansiosa turma de cientistas e jornalistas. Tinha ido até a Universidade, onde se despedi dela, com um beijo, e um leve recado: Estou lhe esperando para tomar um chá! Não se atrase!
Dirigiu até sua casa, onde já havia um grupo à sua espera, e sentou-se no sofá, de frente para o terminal de recepção. Logo ao lado havia um televisor, transmitindo a experiência, desde o laboratório. Um pequeno e privilegiado time de repórteres e técnicos fazia a narração do que deveria ser a chegada, na sala de estar da cientista.
Na hora exata, a cientista foi filmada entrando no terminal de remessa, na Universidade, e o cientista assistente acionou os mecanismos. O terminal, uma cabine que se parecia com uma cabine telefônica, se iluminou intensamente e, após dez segundos, voltou ao estado normal. Na sala de estar casa da cientista o outro terminal também se iluminou intensamente, por dez segundos, emitindo um leve zumbido, e depois se apagou. Havia uma densa nuvem de gases no seu interior. O chefe da comissão da recepção esperou o tempo marcado, de vinte minutos, para abrir o terminal e receber a viajante. Os gases se dissiparam, e a cabine voltou ao estado inicial. Foi aberta a porta, mas não havia o menor sinal de Anyara.
O choque e a consternação foram gerais. A repercussão na imprensa mundial foi bombástica, com muitas e violentas críticas, além de uma ácida zombaria e deboche, e aquele que passaria a ser o maior fiasco da história da ciência levou à extinção total do projeto.
Um mês depois, o marido, refeito do choque, se apresentou como voluntário para integrar a esquadra mundial de exploração do Espaço, participando, já com a idade de trinta anos, de todos os cursos e treinamentos, e tornando-se astronauta dez anos depois. Recebeu a missão de pilotar a nave KX74, da Missão Exodus, que tinha por objetivo encontrar, numa galáxia próxima, um mundo habitável e seguro, para onde uma parcela privilegiada da Humanidade se mudaria, buscando a colonização e expansão da espécie humana pelo Cosmos.
Cada uma das naves numeradas era tripulada apenas por duas pessoas, de sexos opostos, e seguiriam sob as ordens da nave capitânea, que determinaria o espalhamento das naves oportunamente.
Adão não ficou nada contente de ser comandado por uma mulher, ainda mais, que ela era vinte anos mais jovem que ele, e encetou um ato de rebeldia, que gerou conflito interno, vindo a culminar com o desgarramento da nave e seu extravio pelo espaço, o que os levou a encontrar, acidentalmente, um globo habitado por uma fauna e uma flora saudáveis, isenta de seres dominantes, do tipo que se poderia caracterizar como racionais, no qual ficaram por sete anos, e que batizaram de Eden, onde geraram quatro filhos, sendo dois casais de gêmeos, e de onde Adão partiu, deixando Eva encarregada de criar e orientar suas crias, implantando-lhe um código de procedimentos que viesse a garantir uma nova Humanidade, ordeira e pacífica.
Anos depois de ter partido de Eden, Adão encontrou outra nave, muito maior que a sua, com uma grande tripulação. Considerado desertor, foi aprisionado na nave maior, e instado a revelar o paradeiro de sua companheira, o que se negou peremptoriamente a fazer. O fato mais impressionante foi que ele tinha adquirido, no pequeno mundo, algumas bactérias, ou outro tipo de organismos, a que se tornara imune, mas que contaminaram mortalmente toda a tripulação da nave. Tornando-se o único sobrevivente, Adam assumiu o total controle de sua nave, que passou a chamar de Vespúcia, em homenagem a Américo Vespúcio, o marinheiro espanhol que morreu ao chegar no continente que passaria a ser conhecido pelo seu nome, e despachou para o espaço os corpos dos antigos tripulantes. Ao receber mensagens da Terra, que pediam informações sobre a nave, ele respondeu que a mesma não existia mais. Perguntaram-lhe onde estava o equipamento de comunicações que utilizava, e que pertencia à antiga nave, respondeu que estava na nave chamada Vespúcia. Indagado sobre quantas pessoas estavam naquela nave chamada Vespúcia, e que era desconhecida da Terra. Respondeu: “Um! Eu!” Perguntado, então qual era seu nome, numa súbita decisão respondeu laconicamente: “A!”
E assim passou a chamar a si mesmo.
Acalantado pelas memórias, A dormiu profundamente.
Despertou bastante descansado. Teve impressão de que dormira mais do que o desejado. O despertador-vibrador não tinha funcionado. O quarto de dormir não estava iluminado, nem na penumbra, como havia sido posto. Estava totalmente escuro.
Levantou-se de um salto, mas não encostou no chão. Estranhou, pois o calçado metálico não estava sendo atraído pelo piso magnético. Flutuando no ar da nave, sem gravidade e sem a influência do magnetismo de suas botas espaciais, sentiu-se um pouco desorientado a princípio. Pouco a pouco, foi tomando consciência da situação em que se encontrava.
— Energia! Acabou-se a energia! Puro descuido meu! Estou há muitos meses confiando apenas na fartura alimentar de minhas hortas e estufas, e negligenciei em passar perto de algum sol e recarregar minhas baterias! Estou sem carga, embora, pela verificação que fiz, antes de me deitar, pudesse prosseguir ainda por muitos meses! E agora?...
Nadando no ar, flutuando pelo espaço em gravidade no interior da nave, A se lançava, por impulso, de uma parede a outra, na direção da cabine de comando.
Todos os pineis estavam apagados. A única luz visível era a bola azul-esverdeada lá fora, enquadrada coincidentemente no centro da vigia. O misterioso planetóide. Nenhum outro astro se podia ver, a partir daquele ponto.
Voltou-se para o interior da nave. Tinha que ir até o gerador. Tentaria utilizar o combustível tradicional, armazenado nas grandes pilhas de material antigo. Embora o sistema elétrico não funcionasse, talvez conseguisse ligar os dutos de hidrogênio líquido para os propulsores externos. Talvez pudesse, manualmente, acender uma fagulha que inflamasse o hidrogênio, e conseguisse dar alguma propulsão à nave.
O acesso ao sistema antigo passava pela estufa, pelo pomar e pelo mini-zoológico, montados por ele no bojo da nave, onde outrora se abrigava a antiga tripulação.
Lançando-se aos saltos, impulsionando-se pelas paredes, chegou à porta que separava o habitáculo do viveiro, anexo à estufa e ao pomar. Pela janela de vidro, notava-se alguma penumbra naquele ambiente.
Ao abrir a porta de acesso, A ficou parado, com os olhos arregalados e a respiração suspensa. O grito que o instinto lhe ordenava não conseguia sair pela boca escancarada.
Na escuridão da nave, a planta a que dera o nome de Gula, retirada do planeta Vorax, tinha aumentado assustadoramente de tamanho. Seus ramos, compridos e ágeis, dançavam como serpentes, com o efeito de suas células fosforescentes e suas veias de seiva luminescente, fazendo um colorido de vermelho, laranja, verde e azul, que se movia velozmente por todo o ambiente. As folhas verdes, com suas ventosas atacavam as outras plantas e os pequenos animais, sugando-os completamente. Um daqueles ramos esse estendeu na direção do astronauta.
Ele bateu a porta, trancando-a bruscamente. Deu uma volta no corpo e se lançou velozmente, com a energia emanada do medo, em direção ao piso da nave. Abriu o alçapão que conduzia ao módulo espacial, o pequeno escaler que fora tantas vezes utilizado para a exploração de asteróides e globículos, como ele chamava, enquanto a nave-mãe ficava flutuando em órbita, e se lançou para baixo. Mais dois saltos, e estava dentro do módulo.
Se não havia energia na nave, o pequeno motor de hidrogênio do módulo, com sua bateria estanque, talvez pudesse retirá-lo daquele transporte, que agora tinha se transformado no carro da morte.
Abriu a escotilha e entrou no módulo.
Apertou a tecla fosforescente no painel de controle e logo as luzes internas se acenderam.
Fez uma verificação rápida no painel de controle e confirmou que havia hidrogênio suficiente, no tanque do módulo, para cem mil quilômetros de vôo em gravidade zero, ou para um pouso e decolagem a até cinco mil quilômetros, na gravidade terrestre. Sabia que não poderia acionar a abertura da escotilha da nave por meio elétrico. Teria que recorrer à abertura por explosão.
Saiu novamente do módulo e trancou manualmente a porta de acesso à câmara do módulo.
Verificou junto à escotilha externa na nave, por onde o módulo entrava e saía, se os explosivos estavam no lugar. Confirmado.
Entrou novamente no módulo.
Vestiu a roupa de isolamento. Carregou o oxigênio interno e conectou o gerador de ar.
Ligou o injetor de ar do módulo, puxando para dentro dele o máximo de ar que conseguiu extrair da cabine de escape da nave-mãe.
Lacrou o módulo e ligou os foguetes.
Acionou os lasers, atingindo a ignição dos explosivos da porta da nave.
A explosão lançou para longe a porta da nave. Instantaneamente, o ar que ainda havia dentro da nave foi soprado para o espaço, levando consigo o módulo, e, dentro dele, o astronauta.
Uma vez no ar sideral, o astronauta acionou os foguetes do módulo, que começou a voar aleatoriamente, bambeando como uma garrafa que é lançada na água, mas logo se aprumou, mediante a perícia do experimentado piloto.
O módulo voou em órbita, em torno do pequeno mundo, recém-descoberto. Além daquela bola de gás azul-esverdeado e da espaçonave que ficara para trás, nada mais se via.
A olhou em volta, pelo vidro dianteiro do módulo espacial, tentando ver se havia alguma estrela distante, alguma remota constelação, uma nebulosa, um cometa errante, mas... nada. Não havia nada, além da bola azul, que se aproximava cada vez mais do escaler espacial, preenchendo cada vez mais a moldura da escotilha, e a própria Vespúcia, parada, calada e opaca, somente perceptível pelo tênue reflexo da luminosidade azul, muitos quilômetros abaixo dela.
O astronauta acionou um comando, e um pequeno cano de suspiro na lateral externa fez girar o corpo cônico do módulo, fazendo com que o planeta azul-piscina ficasse bem visível, acima de sua cabeça.
A regularidade da camada de gases que encobria o globóide era tão perfeita, tão homogênea, que ela lembrava uma daquelas bolas de plástico com que brincava, quando criança, ainda no agora distante planeta Terra. Não havia nenhuma vibração no ar, nenhuma estrela distante, nenhuma mancha no planetóide, e a impressão que ele tinha era de estar imóvel, absolutamente parado no meio do nada, tendo apenas aquela bola fosforescente à vista. Até mesmo a grande nave Vespúcia ficava a cada volta mais distante e mais opaca, desaparecendo gradualmente da vista do solitário aventureiro.
A nuvem azul-esverdeada ia ficando gradualmente mais próxima, até que o módulo foi totalmente envolvido por ela.
Subitamente os jatos de gás incandescentes pararam de impulsionar o módulo e o astronauta se viu completamente imerso num ambiente verde-azulado. Ele sentiu a parada do jato e ficou imaginando a queda que sofreria. Será que o pára-quedas se abriria?
A pequena nave pareceu parada por uns dez minutos, tempo demasiadamente longo naquela situação, mas após esse tempo, dava para ver que a nuvem ficava menos densa. Durante meio minuto ainda continuava voando, agora abaixo das nuvens, revelando um cenário surpreendentemente sereno e bucólico abaixo.
O pequeno planeta parecia uma bola de árvore de Natal, pintada delicadamente por mãos hábeis e talentosas.
A parte de terra seca parecia estar em perfeito equilíbrio com as partes de águas. A areia parecia dourada, salpicada de pequenos montículos multicoloridos. A parte de água refletia a azul-esverdeado das nuvens, com pequenos trechos mais escuros, como se os rios e lagoas fossem mais profundos naqueles pontos.
Os foguetes do módulo não funcionavam mais, e o astronauta acionou o comando de abertura do pára-quedas. Nada aconteceu.
A pequena nave continuava voando, ao sabor da inércia, aproximando-se do solo daquele distante mundo.
A começou a sentir medo. Um medo que crescia, à medida que a altitude diminuía
Sem rodas para tentar um pouso linear, nem pára-quedas para amenizar a força da gravidade, sua queda deveria ser muito brusca, e ele seria muito ferido.
Olhou mais atentamente, a fim de ver se havia algum indício de vida naquele mundo, algum resquício de civilização, ou alguém a quem pedir socorro, caso ficasse ferido na queda, mas nada via. Aparentemente, aquele lugar belo, artisticamente desenhado, era uma obra do mais puro acaso. Embora houvesse líquido abaixo, que talvez fosse água, não parecia haver ninguém vivo, nem racional nem irracional.
O solo estava chegando cada vez mais próximo.
A começou a sentir um medo real.
A velocidade do módulo não diminuía.
A arregalou os olhos, quando divisou as plantas. Os montículos coloridos na areia eram plantas. Pequenas árvores.
À medida que o módulo se aproximava do chão, a velocidade parecia aumentar.
A olhava pela vigia, apavorando-se cada vez mais. Sua respiração forte, tensa, dentro do capacete, no traje isolado, se condensava no vidro, impedindo sua visão. A própria vigia do módulo parecia estar embaçada.
O impacto chegou. O temido mas esperado impacto chegou.
Como A tinha colocado a vigia voltada para o solo do novo mundo, ela estava para baixo, e logo atingiu a areia, quebrando-se em milhares de estilhaços, que também quebraram o visor do capacete, ferindo a pele e um dos olhos do astronauta. Alguns grãos entraram pela sua boca.
O impacto brusco fez com que o módulo girasse, provocando um sulco na terra, espalhando os grãos cintilantes a grande altura, enquanto o corpo inteiro da nave, a uma velocidade que, em medidas terrestres, seria próxima de quinhentos quilômetros por hora, rodou várias vezes seguidas, com um impacto após o outro, ora batendo o bico, ora a parte traseira, a base, no chão, passando da terra para a parte de água e depois para a terra, e depois para a água, novamente. Na última vez, deslizou na água, que era varrida pela cauda, erguendo um grande esguicho, e ficou imóvel, no meio de um lago, a aproximadamente duzentos metros de distância da margem. A base do módulo, que tinha no total oito metros de altura, pouco mais que a altura de um prédio de dois andares, pelos padrões terrestres, ficou fixa no fundo do lago, e seu bico ficou para cima, numa inclinação de uns setenta graus.
A ficou desorientado por alguns segundos. As visões, na sua cabeça, pareciam girar desordenadamente. Tinha areia na boca e no nariz e em um dos olhos, que também estava cortado. O sangue tomava seu rosto e pescoço, e ainda havia manchado sua veste espacial, originalmente de um branco muito claro.
Estava numa posição grotesca, com as costas na parede dos fundos, que agora era o piso do módulo. Alguns objetos do módulo tinham se desprendido e quebrado. Havia fumaça e faíscas elétricas.
O astronauta olhou para um painel de aço inoxidável, no interior da nave, e viu seu reflexo.
Seu olho direito tinha um corte fundo, e alguns grãos de uma areia dourada, muito fina, como pó de purpurina. O esquerdo tinha um inchaço arroxeado na lateral, e seu nariz parecia quebrado, com muito sangue. Seus lábios estavam sangrando, e ele sentia falta de um dente.
Sua perna e braço direito doíam muito. Notou que seu fêmur parecia quebrado, pois a perna estava muito torta.
Suas costelas também doíam muito, do lado direito.
Esperou um pouco. Talvez alguém tivesse visto o acidente e viesse socorrê-lo.
Lembrou-se de que não tinha visto nada que se parecesse com uma construção, ou mesmo com um agrupamento humano.
Talvez ali não houvesse nenhuma civilização.
Pelo contrário, talvez houvesse animais. Poderiam vir devorá-lo. Precisava armar-se. Precisava sair dali.
Animais. Sim!
Havia ar, naquele lugar.
Havia atmosfera! Oxigênio, Hidrogênio, Nitrogênio!
Sim! Ele estava respirando.
Fez um esforço e retirou o capacete, que já não tinha vidro.
Ergueu-se sobre a perna esquerda, pois a direita, dolorida e quebrada, não obedecia.
Arrastou-se pelo piso inclinado, que agora estava na posição de parede, e chegou até a porta do módulo, do lado esquerdo.
Agarrou a alavanca com força e, soltando um berro, puxou-a para baixo. Não conseguiu movê-la. O traje atrapalhava.
Não havia ninguém por perto. Resolver tirar o traje.
Com muita dificuldade, tendo apenas o braço e a perna esquerdos para mexer, conseguiu tirar todo o traje espacial. Vestia por baixo uma ceroula comprida e uma camisa de malha. Tirou pacientemente as botas, o que foi mais difícil, e se olhou novamente no espelho improvisado de aço cromado.
Sua coxa e sua perna estavam tortas, grotescas, e com muito sangue. Havia também um corte profundo no tórax. Notou o que parecia uma ponta de costela, exposta sobre a pele rasgada.
— É... Não está fácil! — resmungou, um pouco resignado. Havia uma caixa de primeiros socorros, mas estava no painel, dois metros acima. Naquelas condições, era difícil alcançar.
— Vou tentar abrir. Se entrar água, talvez consiga flutuar até lá e pegar as ataduras.
Agarrou novamente a alavanca de abertura da porta, e puxou, dependurando-se totalmente nela. Desta vez, funcionou.
A abertura cedeu e a porta, pressionada pela massa de água, se abriu para dentro do módulo, inundando-o rapidamente.
A água invadiu a cabine num jorro grosso e forte, lançando o astronauta de encontro à parede oposta, num redemoinho.
Ele engoliu parte da água, quase se afogando, enquanto era jogado pelas paredes. Logo atingiu a altura do painel de controle. Abriu a portinhola da pequena estante embutida e puxou a caixa de pronto-socorro.
Deu uma olhada na caixa e riu. Um riso nervoso, desesperado. Só havia um resto pequeno de base, quase pulverizado, de tão velho. Lembrou-se de que só utilizara aquele material no planeta Eden, para atender a Eva, que tinha feito um pequeno corte no pé. E já fazia muito tempo.
Usando a poltrona de comando como apoio, sentou-se sobre o painel, para tentar improvisar um curativo na perna esquerda. Ergueu a perna da ceroula e estranhou. Sua perna estava em prefeito estado. Não havia nenhum corte. Fratura, menos ainda. Nem na coxa. Nem nas costelas.
Que estranho... Ele tinha certeza...
Passou a mão no olho direito e no nariz. Ainda estavam cortados, e o sangue, parte coagulado, ainda jorrava. Curvou-se e apanhou um pouco daquela água, que estava logo abaixo. Passou-a no olho e, junto com a água vieram os pedaços de vidro e os grãos de areia, que parecia purpurina dourada.
— Incrível!
Tomado de um súbito ânimo, lançou-se do painel, onde estava sentado, mergulhando totalmente naquela água.
Sentiu-se leve, refrescado e aliviado.
Aproveitou e bebeu um pouco da água. “Caso haja alguma hemorragia interna...”
Sentiu um bem-estar que há muito tempo não tinha. Parecia estar com o vigor de vinte anos. Mergulhou e puxou o espelho de aço inoxidável, olhando-se mais uma vez. Nem sinal de corte no olho ou no nariz. Até suas antigas cicatrizes tinham saído. Resolveu sair da nave. Subiu pelo painel, até a escotilha quebrada e passou por ela, ficando em pé no bico da nave.
Estava no meio de um lago raso, de água azul-esverdeada, da mesma cor das nuvens que cobriam todo aquele planeta.
A duzentos metros, havia uma praia, de areias douradas, sobre a qual apareciam, esparsas, várias árvores copadas, de folhas multicoloridas.
Era um belo cenário.
Ele sabia que não havia nenhum sol por perto. Na verdade, aquele lugar estava tão distante de tudo que, lá de cima, onde ficara a Vespúcia, não se via nenhuma luz, nem o mínimo traço de um estrela, em nenhuma direção para onde olhasse.
No entanto, aquele lago e a praia ao lado eram perfeitamente iluminados.
Era como se a luminosidade viesse das próprias nuvens.
Resolveu ir até a praia.
Não sabia a profundidade do lago, mas... sabia nadar!
Lançou-se na água, de camiseta e ceroulas, e nadou, calmamente, até a praia.
A temperatura da água era confortável, refrescante, sem ser muito fria, e sua densidade era tão leve, que parecia um éter. Não havia sal na água, como nos mares, mas ela não era tão “pesada” como nos rios e lagos da Terra.
Chegou à areia, de grãos dourados, que davam uma confortável sensação a seus pés, e caminhou até uma daquelas árvores.
Observou o tronco da árvore. Não era muito grosso, podendo ser empolgado com os braços, e tinha muitas cores. Era formado por muitas veias, de várias cores, que se enroscavam harmoniosamente, formando desenhos aleatórios, como arabescos, nos quais se poderia imaginar figuras, como fazia olhando as nuvens da Terra, em seus tempos de criança.
Os ramos se espalhavam-se, entrelaçando-se aqui e ali, ora afastando-se uns dos outros, suportando folhas verdes, escuras e claras, misturadas com outras, vermelhas ou alaranjadas, que também se movimentavam constantemente. A impressão que se tinha era de que, em vez de ser movidas pelos ventos, as folhas tinham força própria, criando, elas mesmas, os movimentos da massa de ar que mantinham o ambiente tão agradável, numa brisa constante e perfumada.
A reparou também que as árvores tinham muitas flores, de formatos e cores variadas. Pareciam ser de algum tipo de enxerto mágico, pois numa mesma planta havia diferentes tipos de flores, de frutos e de ramos, com cores e aromas variados.
O aroma daquelas flores e dos frutos lhe abriu o apetite. Não fome, realmente, mas desejo de saborear aqueles frutos.
Notou que não havia frutos iguais numa mesma árvore. Havia frutos redondos e polpudos, como mangas-rosas, num mesmo galho em que um fruto esférico, cor-de-rosa, cintilava com uma pele que lembrava o pêssego.
A não resistiu e estendeu a mão para tirar um daqueles frutos. Não chegou a tocá-lo, pois o próprio galho se curvou até ele e o fruto lhe caiu suavemente na mão.
Ele não estava acostumado com aquilo. Não tinha lógica! Não era certo!
Olhou em volta. Aquilo deveria ser algum tipo de máquina. Havia algum mecanismo. Alguém o observava, e estava brincando com ele.
Não conseguiu ver nenhum espelho, nenhum reflexo de sol numa lente, de alguma câmera oculta...
Deu de ombros e levou o fruto à boca.
Sentiu um aroma doce, suave, e mordeu o fruto, que tinha a textura de uma maçã, um pouco mais tenra. E o sabor, era algo indescritível. Era extremamente saboroso, um pouco doce, um pouco ácido, e parecia até ter alguma porção de salgado.
Continuou comendo o fruto, que mudava de sabor a cada mordida, assim como sua polpa mudava de textura e cor. Não havia nenhuma semente, e, como a própria pele era suave, nada sobrou daquele fruto.
Ainda pensou em saborear outro fruto da mesma árvore, uma vagem comprida e roxa, mas percebeu que não tinha vontade mesmo, pois aquele simples fruto o havia saciado completamente.
Olhou em volta, para ver se vinha alguém, mas ninguém apareceu.
Resolveu sentar-se ao pé daquela árvore, para descansar um pouco, mas não estava absolutamente cansado.
Mesmo assim, sentou-se ali, na areia dourada.
Escorou as costas no tronco da árvore, e sentiu movimentos macios às suas costas, como se a árvore tivesse vida própria e o acariciasse.
Era tão macio e agradável, que ele poderia cair no sono.
Passou as mãos pela areia e colheu um pouco.
Observou com atenção e notou uma coisa: não era areia. Não cheirava como areia, nem sujava como areia.
Eram grãos. Pequenos grãos de várias formas, texturas e cores. Grãos dourados, prateados, platinados, amarelados... alguns eram metálicos, outros eram transparentes, outros, leitosos. Alguns eram esféricos, outros eram ovais, outros, ainda tinham formatos de lapidados... lembravam esmeraldas, ouro, topázio, ônix, rubis...
Não! Não lembravam! Eram!
A se levantou, tomado de uma súbita idéia e correu para o lago, levando um punhado daquelas pedras, na mão. Nadou até sua nave, tomando cuidado para não perder as pedras. Entrou pela porta, que estava submersa e aberta, e subiu até o painel de controle. Acima do painel havia uma portinhola, uma espécie de porta-luvas, bastante grande, onde guardava seus tesouros mais caros.
Tirou do porta-luvas uma bolsa grande, de couro, dos tempos em que se faziam bolsas de couro na distante Terra, e, sentado na abertura da vigia, que tinha sido quebrada na queda do módulo, foi retirando os objetos. Algumas moedas muito antigas, fotografias, desenhos, um canivete suíço, de sete lâminas, presente de seu pai, um microscópio, um manual de geologia, dos tempos de faculdade, muito antes de imaginar que seria astronauta, uma velha Bíblia e um caderno, com as anotações que um dia achara importantes.
Ali mesmo, sentado na abertura da vigia, sob a luz das nuvens, usou a capa dura da Bíblia como mesa, pondo o velho caderno aberto sobre ela, e espalhou ali as pedras que tinha colhido na praia.
Assentou o microscópio e, à luz do manual de geologia, foi examinando as características das pedras. Eram verdadeiras. Ouro, topázio, prata, ônix, rubi, topázio, hematita, água-marinha, lápis-lázuli...
Abriu a Bíblia:
“... as ruas são calçadas de ouro e pedras preciosas...”
“... quem beber da água que eu lhe der jamais terá sede outra vez...”
“... a quem eu der de beber a água da vida não morrerá, mas terá a vida eterna...”
Abriu o caderno:
“Escola dominical. Discussão. A Árvore da Vida e a Árvore da Ciência do Bem e do Mal.
Professor: “Então, havia duas árvores no Jardim do Eden. Uma, era a Árvore da Vida. A outra, a da Ciência do Bem e do Mal.”
Luís: “Como era a Árvore da Vida, professor?”
Professor: “Olha, Luís. Eu não se como ela era. Mesmo porque ela não existe mais na terra. Aqui diz que ela foi retirada da Terra, e levada para o céu.”
Luís: “Mas para que lugar, no céu?”
Professor: “Não sei. Provavelmente para algum planeta, um outro mundo... Eu, pessoalmente, acho que ela está no planeta do Centro do Universo. Acho que é para lá que os salvos vão, depois da ressurreição.”
Mauro: “Mas isso não é apenas linguagem figurada, professor? Será que existe mesmo essa tal de árvore?”
Professor: “Bem, Mauro. As pessoas que não acreditam na realidade bíblica, e só querem acreditar na verdade dos cientistas, tendem a dizer que tudo o que está na Bíblia é no sentido figurado. Mas, se olharmos bem, será que a chamada Ciência também não tem muita coisa em sentido figurado? Muitas coisas que os cientistas e filósofos de antigamente acreditavam ser verdade são contestadas pelos cientistas de hoje. Da mesma forma, o que as pessoas encaram como verdades científicas de hoje podem ser consideradas fraudes, ou apenas como figuras de linguagem, pelos cientistas de épocas futuras. Mas o certo é que as palavras da Bíblia, mesmo sendo contestadas pelos chamados cientistas de hoje, ainda são tão importantes que esses mesmos cientistas se preocupam com elas todos os dias.”
Luís: “Então, se a Bíblia é verdadeira, literalmente, então um dia o reino de Deus vem do céu, entre as nuvens, e os salvos vão viver lá?”
Professor: “Eu creio que sim. Nas escrituras diz que, no final dos tempos, os astros vão cair dos céus, e haverá novos céus e nova Terra, e na nova terra não vai haver nem noite nem dia, e ninguém vai envelhecer, nem adoecer, nem ter fome, nem sede, e o tempo será eterno.”
Luís: “E o senhor acredita que essa nova Terra já existe hoje, e que a Árvore da Vida está lá?”
Professor: “Sim, eu acredito. Mas eu não sou dono da verdade. É apenas a minha interpretação, mas tudo vai se provar no devido tempo.”
Mauro: “Professor. Se essa Terra já existe hoje, em que lugar do espaço ela está?”
Professor: “Eu creio que no Centro. Bem no Centro do Universo. No Centro do Espaço Sideral.”
Mauro: “Mas no centro do Universo não fica a Terra? A Bíblia diz que no princípio, Deus criou os Céus e a Terra. Depois, ele criou a expansão, com as águas de cima e as águas de baixo, e que na expansão, que é o Espaço Sideral, ele criou o sol, a lua e as estrelas. Então a Terra não fica no Centro do Universo, já que os Céus, que foram criados antes da Terra, são os céus metafísicos, onde residem os anjos e os espíritos, inclusive os espíritos maus?
Professor: “Eu creio que os Céus, criados antes da terra, eram céus físicos, materiais, dos quais foram expulsos os anjos maus, e onde se congregam os anjos fiéis. E mais: aqueles céus metafísicos têm um ponto de contato com os céus físicos, o Espaço Sideral. Os cientistas de hoje acreditam que o Universo nasceu de uma grande explosão de matéria, de onde partiram todos os átomos e partículas atômicas e subatômicas, numa expansão que está acontecendo até hoje, e que ainda vai acontecer por alguns bilhões de anos. Alguns prevêem vinte bilhões de anos para a frente. Ora, se toda a matéria do Universo saiu de um mesmo ponto, e está em plena expansão, então aquele ponto que é o verdadeiro Centro do Universo, é um ponto de onde toda a matéria e a energia já saiu há bilhões de anos. Então eu creio que é naquele ponto que se encontra a Nova Terra, onde está guardada a Árvore da Vida. Lá não existe nenhuma luz, já que toda a luz, que é energia, e a matéria, de onde a luz é emanada, saiu de lá. Pois é o lugar mais central do Universo.
Adão: “Bom. Se essa nova Terra já existe, é possível, então, que no futuro, quando a Ciência dos homens chegar a tal alcance, um astronauta consiga chegar nela...”
Professor: “Em tese, sim. Mas depende de quanto vai se desenvolver a ciência, e de quando vai acontecer o Fim dos Tempos. Agora, se algum astronauta chegar vivo lá, antes desse tempo, pode ser que toda a História seja modificada, inclusive os planos divinos, e o Dia da Salvação. Se algum astronauta chegar a um lugar de onde não se veja nenhuma luz, ele estará na Nova Terra. Lá ele encontrará a Árvore da Vida. Se comer de seu fruto, não vai mais poder morrer. Por outro lado, ele pode atrapalhar os planos divinos e impedir que o fim dos tempos chegue, já que a Nova Terra, onde foi guardada a Árvore da Vida, supõe-se que seja uma terra pura, que nunca foi maculada por nenhum homem. Só mesmo uma nova criação poderia estabelecer de novo a Nova Terra.”
Luís: “Vai ser bom, então. Tomara que algum astronauta chegue lá, porque assim não vão acontecer as desgraças do Apocalipse...”
Professor: “Por outro lado, se isso acontecer, ninguém vai se salvar, porque os mortos nunca vão ressuscitar...”
A ficou bastante perturbado ao ler esse extrato de uma aula para adolescentes, ocorrida há mais de cem anos. Vasculhou no interior do módulo, para tentar achar uma lanterna para quando escurecesse, e um relógio, mesmo que fosse mecânico, para ter uma idéia do tempo, mas nada achou.
Lançou-se novamente no lago e foi até a praia. Resolveu caminhar um pouco, para tentar encontrar outros habitantes daquele lugar. Era impensável que um lugar tão fértil, com um clima tão maravilhoso, não tivesse uma população.
Com sua bolsa de quinquilharias na mão, passou a percorrer as terras de ouro e gemas, à procura ou, pelo menos, à espera, de encontrar alguém mais, naquele estranho planeta, que bem poderia ser o portal entre o Universo físico e os Céus metafísicos.
Passou bastante tempo, ele não sabe quanto, mas ainda não achou ninguém. Ele acha que já percorreu todas as margens de todos os lagos, mas ainda não achou ninguém, passou a vagar de árvore em árvore, para evitar passar muitas vezes pelo mesmo lugar, mas não sabe se já passou por todas as árvores, pois parece que elas estão sempre mudando de cor, de forma, de tamanho, de frutos. As próprias margens dos rios e lagos também parecem mudar de lugar. Ele já tentou voltar para o lugar onde deixou se módulo espacial, mas ainda não achou. Não sabe se o módulo afundou no lago, ou se as margens estão se movendo, como as árvores, e ele está sempre se perdendo.
Não sabe se está indo para o norte ou para o sul, já que não há sol, nem entardecer, nem meio-dia, nem meia-noite, e até a bússola que ele achou em sua bolsa só aponta para ele mesmo.
Não sabe se aquele pequeno mundo multicolorido em que o céu é um eterno crepúsculo azul-verde, é a chamada Nova Terra dos estudos bíblicos, e estremece ao imaginar que pode estar atrapalhando a chegada do Dia do Juízo.
Não encontra nenhuma pessoa, nenhum animal, nem mesmo um inseto, e todo aquele ouro e as pedras preciosas que forra o chão é aborrecido, entediante.
Quer dormir, mas não consegue ter sono. Quer se cansar, para ter sono, mas não sente cansaço, pois bebeu da Água da Vida e comeu do fruto da Árvore da Vida. Não consegue retornar ao lugar de onde saiu, nem tem um lugar certo, para onde possa rumar.
Tem lá no fundo, bem no fundo, uma esperança de encontrar sua Anyara, que desapareceu tão misteriosamente, há tanto tempo. Imagina que ela também possa estar naquele mundo. Ás vezes chega a ouvir sua voz, por detrás das árvores coloridas. Mas, quando olha, ela não está lá.
Onde estará ela? Estará viva? Terá sido desintegrada, tendo seu corpo diluído em uma série de moléculas espalhadas pelo Cosmos?
Às vezes, sonha, tem quase certeza, de que alguém o observa às escondidas, por detrás das árvores, ou enterrando-se nas areias, sob pedras preciosas, que valeriam incalculáveis fortunas, se fossem levadas para a Terra.
Terra. Tem vontade de retornar à Terra, que abandonou há tanto tempo.
De vez em quando, tem vontade de parar. Mas não pára. Tem que chegar. Onde, não sabe, mas sabe que tem que chegar. Tem que achar alguém.
Como seria bom achar alguém... Alguém que lhe ajudasse a encontrar seu módulo espacial, que lhe fornecesse combustível para reabastecer a Vespúcia, e tentar retornar ao seu mundo, ou pelo menos, encontrar outro...
Vespúcia. Como estará sua nave? Certamente, Gula já devorou todas as matérias orgânicas e acabou com a nave. Pode ter estendido seus galhos por todo o corpo da nave e, depois, por não haver mais o que consumir, pode ter morrido e secado. Se ele conseguisse, de algum modo, por algum milagre, voltar para a velha nave, poderia dominar Gula? Será que aquela árvore já morreu? Estará seca, com seus caules e raízes espalhados em volta do corpo da nave?
E se Vespúcia, atraída pela gravidade desta Nova Terra, vier a cair? A luminosidade das nuvens poderá contê-la, ou será insuficiente, e ela devorará as outras árvores, as árvores da vida?
A não sabe.
A não quer saber.
A não quer mais nada.
A não sabe há quanto tempo está lá.
A não encontrou ninguém.
A quer comer, mas não tem fome.
A quer dormir, mas não consegue.
A caminha, caminha, caminha, corre, corre, corre, salta, salta, salta, mas não consegue se cansar nem um pouquinho, para poder dormir.
A canta, para passar o tempo. Já cantou tudo o que sabe, para tentar espantar os seus males, mas não conseguiu. Gritou, para tentar, pelo menos, ficar rouco, mas não conseguiu...
Já tentou até morrer, mas não consegue. Ele pode cortar os pulsos, as veias da carótida, quantas vexes quiser, mas elas se curam imediatamente, e nem deixam marcas.
A quer ficar louco, esquecer tudo, esquecer até quem é, mas não consegue. Sabe que é apenas ele. Sabe que é somente ele. A e mais ninguém. Só ele. Só A.