sábado, 9 de abril de 2016
O Rei Raivoso IV
O Rei Rubião, conhecido como Rei Risonho, acordou tarde. Verificou que sua suíte tinha sido conservada e bem cuidada durante sua ausência. A tina, na câmara interna, estava cheia de água morna, recém colocada. Tomou um longo banho, retirando todos os odores de lama e suor que acumulara durante a longa e infrutífera viagem, vestiu novas roupas reais, limpas e perfumadas, e desceu, pelas escadarias da torre, até a sala de jantar real. Apenas as serventes da cozinha se encontravam no local. Admiraram-se com a visão do rei, em roupas limpas. Mas não se negaram a servir-lhe o almoço. Não se atreviam a interpelar o rei, mas ele tomou a iniciativa e contou-lhes, de forma resumida, o que acontecera aos homens do reino, a vergonha passada, a derrota humilhante... e falou de um espírito que o trouxera de volta, numa grande ave, durante a noite. Assim, esperava reduzir os efeitos das inevitáveis especulações. Os outros nobres da corte, que costumavam almoçar junto com o rei, apareceram para o almoço, e se surpreenderam com sua presença. Ele falou pouco, dizendo apenas que contaria tudo na sala do trono, ao chegar a costumeira hora do despacho.
Após o almoço, o rei retornou aos aposentos, pegando o cetro e a capa, indumentárias cerimoniais obrigatórias, sem as quais perderia o prestígio e a confiança de seus súditos, e desceu para o salão do trono. Estava cheio, e seu trono estava ocupado por um dos anciãos, conhecido pelo apelido de Vítor Velhaco.
A aparição do rei, em trajes limpos, surpreendeu a maioria da audiência, embora alguns já tivessem sido avisados pelas fofoqueiras de plantão sobre sua volta. O ancião Vítor surpreendeu-se ao vê-lo, e não pareceu nada contente. O rei imaginou que aquele homem estava muito à vontade, liderando a população. Ficou de pé, diante do trono, esperando que o intruso percebesse que estava em posição inferior e desocupasse o seu lugar, o que aconteceu rapidamente.
Ao sentar-se no trono, que lhe pertencia por direito (um direito que lhe fora imposto como obrigação, lembrava-se bem), contou, para todo o povo, os acontecimentos da malograda expedição, narrando as pequenas aventuras e contratempos da longa jornada, a encontro da Cidade do Noroeste, o desafio, e, ao final, a batalha, facilmente cedida por seu povo. Informou com pesar que os homens de seu reino tinham sido feito escravos, e como escapara sozinho. Falou do socorro que recebera, e do misterioso homem que o trouxera, voando num pássaro gigantesco e negro.
Os súditos ouviam com atenção, sem piscarem os olhos. As mulheres e crianças ficaram muito tristes, com a certeza de que jamais veriam novamente seus pais e maridos.
Nem todos estavam contentes com a volta do rei. Alguns, como o ancião Vítor e seus amigos, estavam muito descontentes. Revoltados, mesmo, pois já se consideravam os novos líderes do reino.
Escondendo-se da multidão, um jovem ágil e esguio trepou numa coluna, com um arco e um jogo de flechas postos às costas, e, sem ser percebido pela multidão, apontou cuidadosamente a flecha, na direção do peito do rei, que também não o tinha percebido. Com braços firmes, e a pontaria bem estabelecida, o jovem soltou a corda, e a flecha voou, lesta e certeira, na direção do peito do Rei Risonho. Ninguém na multidão percebeu o lance, até que, subitamente, um vulto negro, mais alto que um homem normal, deu um grande salto, desde a porta aos fundos do salão do trono, e caiu no chão, ereto, diante do rei. Portava um enorme machado, todo preto, como suas vestes, e o fez zunir, num movimento em arco, atingindo a ponta da flecha (que ninguém tinha percebido até aquele instante), cortando-a ao meio, de comprido, da ponta às penas. Em dois outros movimentos, circulares e igualmente rápidos, cortou, no mesmo sentido, as duas metades que se formaram com o primeiro corte. O que até aquele momento tinha sido uma seta, agora eram quatro fiapos de madeira, que, enrodilhados, caíam levemente no solo.
Todo se espantaram, sem nem mesmo terem percebido exatamente o que se passara, naquela fração mínima de tempo. Ouviam o sibilar da flecha se cortando, e viam o vulto preto que surgira de repente. Um enorme susto abalou todos os presentes. No momento seguinte, antes ainda que percebessem o que estava acontecendo, o vulto deu outro enorme salto, na direção da elevada e grossa coluna, onde estava firmado o atônito arqueiro. Agarrando a coluna com as pernas, firmando-se ali, o vulto de preto agarrou o rapazola pela gola da blusa, com a mão esquerda, enquanto a direita ainda segurava o machado, e deu outro grande salto, desta vez, para trás, apoiando um dos pés na coluna. Caiu no chão, em frente ao trono, com o machado na mão direita e o rapazola, que, diante da estatura do vulto, parecia um boneco de brinquedo, na esquerda. Soltou o garoto no chão e, sem dizer nenhuma palavra, girou o machado na mão direita e o brandiu em direção ao assustado arqueiro. O gume da arma negra, de um dourado intenso, pareceu soltar faíscas, enquanto cortava o ar, sibilando agudamente. As faíscas douradas se avolumaram tanto (à medida que o machado avançava na direção da vítima), que logo a cobriram totalmente, em meio à fumaça que se formou.
Quando a fumaça, finalmente, se dissipou, o rapaz já não estava lá. Ninguém mais o viu. À vista de todos, desintegrou-se no ar, não deixando o menor vestígio de uma existência anterior.
Em seguida, o vulto negro deu outro salto, na direção do trono do rei. Caiu atrás do trono, pouco à direita das costas do rei, e ali ficou, imóvel, em pé, segurando firmemente o machado negro.
Ninguém entendia o que estava ocorrendo. Nem mesmo o rei. Somente o ancião Vítor Velhaco tinha uma ideia do ocorrido, já que o arqueiro fracassado, e agora desintegrado, era seu filho. O rapaz tentara assassinar o rei, contando que, após o sumiço dos adultos da cidade, por culpa do rei, a população apoiaria o ato, e consagraria o ancião no reino.
A partir daquela tarde, a presença do vulto negro, sempre às costas e à direita do Rei Risonho, tornou-se uma constante. Por várias ocasiões, o vulto, apelidado pelo povo de Carrasco Carrancudo, usou seu machado, usando o gume dourado para fazer desaparecerem aqueles que manifestassem perigo ao rei, e o outro gume, prateado, para cortar todo e qualquer tipo de objeto, desde finíssimos fios de seda até as mais duras e volumosas pedras. Nem mesmo as gigantescas estruturas de aço resistiam ao corte afiado e veloz do machado.
Pela força do medo, a população aprendeu a respeitar o rei, sempre protegido pelo seu mais fiel servo. Jamais ouviram a voz do carrasco, nem viram qualquer parte mínima de seu corpo. Não sabiam se era negro ou branco, qual a cor de seu cabelo ou de seus olhos. Não viam nem mesmo a ponta de seus pés, sempre oculta pelas sobras da saia que o cobria, desde a cabeça, numa única veste, como um funesto lençol.
