Em um lugar incerto, há muito tempo, havia um reino chamado Reino Rebordoso.
Ficava no sopé de um grande pico, do lado do poente.
Quando uma tribo de nômades chegou naquele lugar, vendo que havia um rio que descia do lado do pico, tinha achado um bom lugar para construir as casas e fundar uma pequena nação. Mas, enquanto construíam as casas, havia muita desavença entre eles. Então, resolveram escolher um, entre eles, para dar as ordens, de modo a controlar os conflitos.
Escolheram o mais alto, que também achavam mais bonito. Pensaram que, por causa de sua estatura e de sua aparência, poderia ser um verdadeiro Rei.
Então ele foi nomeado e chamado de Rei Risonho, pois sorrir era o que ele mais fazia.
Com a ilusão de que tinham um líder, as pessoas passaram a se respeitar mais, e assim conseguiram conviver, e construir suas casas, o seu pequeno reino. Mas, na verdade, o Rei Risonho era também um bisonho, um bobão, que só sabia sorrir. Por isso, os cidadãos do reino decidiram eleger um conselho, para aconselhar o Rei. E o conselho, também chamado de Senado, porque era formado pelos mais idosos da comunidade, passou a dizer o que o Rei devia mandar ou desmandar. Na verdade, era o Senado quem dava as ordens, mas era o Rei quem levava a culpa.
Quando as casas da cidade já estavam totalmente construídas, acharam que devia ser erguido um palácio para o Rei. O tal palácio seria a sede do governo, que era supostamente comandado pelo Rei. O Rei, claro, apoiou a idéia, e o grande palácio foi construído, ao longo de muitos anos.
Quando o palácio já estava pronto, à sombra do grande pico, os senadores acharam que, para que o seu reino fosse respeitado, tinha que conquistar e mandar em outros reinos. Conversaram entre eles, por muitas e muitas reuniões, e decidiram que tinham que aconselhar o Rei Risonho a mandar formar um exército, para conquistar outro reino.
Àquela altura dos acontecimentos, o Rei Risonho já estava meio idoso, e, como nunca antes discordara do Senado, concordou mais uma vez, embora, no fundo, fosse muito medroso para pensar em ir à guerra.
"Está certo! Concordo..." disse o Rei, reticentemente. "Mas que outro reino devemos conquistar?"
"Majestade," disse o senador mais velho. "ouvimos falar que lá para o Noroeste há vários reinos, menores do que o nosso. Podemos ir lá, conquistar o menor deles, e trazer os homens como escravos, para trabalharem para nós. Afinal, vivemos trabalhando muito, e não vale a pena ter um reino só para trabalhar. Com escravos, poderemos aproveitar melhor a vida, enquanto eles fazem todo o trabalho pesado."
"Está certo! Vocês venceram!" concordou o Rei, que sempre concordava mesmo. "Mas como é que se faz um exército?"
"Ora, majestade," redarguiu o senador, "juntamos todos os homens, mandamos fazer as armas que usarão na guerra, treinar bastante, depois vamos embora, conquistar outros reinos."
"Se vocês sabam fazer, façam!" disse o Rei Risonho, que, na verdade, não queria se comprometer.
Então, os senadores escreveram um decreto, que o rei assinou, ordenando que todos os rapazes e homens adultos se apresentassem, para comporem o exército de seu reino.
Todos obedeceram, e passaram muitos dias construindo arcos, flechas, escudos e espadas. Fizeram também arreios para os cavalos, bandeiras, estandartes e roupas de guerra. Treinaram bastante, para atirar suas flechas nos alvos de madeira que eles mesmos pintaram e, quando chegaram os primeiros dias de verão, o exército estava pronto. O Reino Rebordoso estava em condições de entrar em rebordosa.
O Rei achou muito bonito, o desfile da tropa, todos alinhados, perfilados, vestidos com suas armaduras reluzentes, portando espadas, escudos, lanças, arcos, flechas e alforjes, nos seus cavalos fortes, lavados e escovados. E então autorizou a marcha.
Só que não tinham lhe avisado que, em toda marcha de guerra, o rei é quem tem que ir na frente comandando os guerreiros. Ele ficou apavorado, porque morria de medo de qualquer confusão. Mas não teve jeito: ou seguia os conselhos do Senado, ou ficaria desmoralizado.
Então, partiu, na frente do seu exército, para a conquista do primeiro dos reinos do noroeste.
Depois de muitos dias de marcha, cansados, e já quase sem comida, nem para si nem para os cavalos, o rei, os senadores e os soldados que compunham o Exército do Reino Rebordoso avistaram o primeiro dos reinos do Noroeste. Era uma cidade aparentemente pequena, que não tinha muralha nem fosso, e que seria muito fácil de atacar. O Rei mandou que seu Exército parasse e descansasse, que ele decidiria o que fazer.
Então, convocou o Senado para aconselhá-lo.
"Majestade," disse o senador mais senil, "cabe-vos agora fazer uma declaração de guerra e mandá-la ao reino que o senhor vai conquistar."
Então, ajudado pelo Senado, o Rei Risonho escreveu, num pergaminho, sua declaração de guerra ao reino do Noroeste e, montado no seu cavalo branco, foi até a cidade, entregá-la pessoalmente, deixando seus soldados acampados no cerrado.
Perguntou às pessoas que encontrava no caminho onde ficava o palácio real, mas ninguém entendia sua língua. Até que, quase ao anoitecer, um mascate, que viajava por muitos lugares e falava muitas línguas, aproximou-se daquele homem ridículo, de armadura e capa vermelha, ocm uma coroa por cima do capacete, e prometeu levá-lo ao seu rei.
Chagando ao palácio do rei, que não era nenhum grande palácio, mas apenas uma casa maior do que as outras, o Rei Risonho foi falar com o rei local. O mascate serviu de intérprete.
"Bem vindo ao nosso reino!", disse o Rei do Noroeste, homem simples, sem nenhuma ostentação. "Em que podemos servir-vos, simpático estrangeiro?"
(Continua na próxima postagem).
