Quando acordou, o Rei estava em um lugar muito escuro, deitado de bruços, com os braços amarrados numa cama de madeira dura. Tentou se mexer, mas não podia.
Depois de um longo tempo imóvel, percebeu que a luz entrava no lugar. Ouviu ruídos de alguém se mexendo pelo ambitente, mas nada via. Ouviu um crepitar e percebeu que tinham ateado fogo em alguma coisa próxima, pois uma luminosidade amarelada tomou conta do ambiente, bruxuleando sobras na parede abobadada à sua esquerda.
"Quem está aí?" perguntou, com a voz apagada pelo medo.
Como resposta, ouviu passos, pesados e arrastados, que se aproximaram e pararam ao seu lado. Pela posição em que estava, mal conseguiu divisar a barriga de um homem, que devia ser muito alto e forte. O blusão acinzentado do homem era cingido por um cinturão largo, de couro preto e fivela pesada, de ferro.
"Acordou, finalmente!" disse o homem, com uma voz rouca e grossa, quase um grunhido.
Ele não conseguia virar o pescoço para ver o rosto do homem, mas notou que este se inclinava para a cama, estendendo os braços. Segurava uma faca muito grande na mão direita. Imaginou que o homem fosse feri-lo e sentiu um arrepio nos cabelos da nuca.
Porém, em vez de feri-lo, o homem usou a faca para cortar as cordas que prendiam as mãos do Rei à cama.
"Tenta erguer-te!" disse o homem, rispidamente, com um vozeirão grave e rouco.
O Rei mexeu os braços, que estavam dormentes e começaram a formigar dolorosamente.
"Sinal de que estou vivo!..." pensou o Rei, referindo-se à dormência.
Com algum esforço, conseguiu erguer-se da cama e ficar em pé, de frente para o homem que o desamarrara. Olhou-o atentamente, tentando reconhecê-lo. Não, nunca o vira antes.
O homem era muito alto, com o torso largo, braços grossos, escondidos nas mangas de um blusão cinzento, muito surrado. Seu rosto não era nada agradável: grosseirão, com uma barba crespa, de muitos dias, cicatrizes que lhe cortavam as faces e a testa, como se tivesse sido, há algum tempo, atingido por dois cortes de espada ou facão. Os olhos grandes, de íris negras, quase não tinham brilho, mal refletindo a luz fraca da lareira.
O estranho se aproximou da lareira, onde o fogo crepitava, e pegou em um bule muito grande. Despejou café numa caneca grosseira e o trouxe, juntamente com um prato, sobre o qual havia duas batatas assadas, dando-os, prato e caneca, ao Rei.
"Estás aqui desde a última lua nova. Peguei a coroa e o elmo que tinhas deixado no chão, antes que os soldados, teus inimigos, os recolhessem de despojo. Imagino que sejas o rei que comandava aqueles infelizes..."
O Rei deu uma mordida numa batata e tomou um gole de café.
"O rei. Sim, sou o rei, que eles chamam de Rei Risonho."
"Um tolo, digo eu. Trouxeste de muito longe um bando de despreparados. Desta caverna, no cimo do morro, observei teus homens, e vi que nunca fizeram uma guerra antes. Nem mesmo acampar sabiam. Durante o tempo em que esperaram pelos inimigos, ninguém treinava tiros de flecha nem manejo de espadas. Eram umas crianças, brincando de guerra, como se não fosse coisa séria."
"Pensei que estivessem bem treinados... Afinal, os anciãos me informaram que estavam prontos para a batalha...", balbuciou o Rei Risonho, como um menino que é flagrado numa falta e tenta encontrar uma desculpa.
"E teus anciãos eram outros estúpidos. Devem estar mortos a esta hora, e é bem feito. Afinal, como se declara guerra a uma nação e se fica parado, esperando que os inimigos tragam reforços de longe?"
"É que nós queríamos fazer escravos, e o rei deles disse que todos os homens aptos estavam ausentes; que só havia velhos, crianças e mulheres na cidade..."
"E, em vez de aproveitar que o rei deles confessou sua fraqueza e tomardes a cidade, ficastes esperando que eles trouxessem reforços e cercassem vosso exército por três lados! Dá vontade de rir..."
O Rei Risonho baixou a cabeça, envergonhado de ter sido tão estúpido.
"Bom," continuou o homem da caverna: "agora não adianta censurar nem reclamar. Vou pôr-te a par da situação. Estás aqui desde a última lua nova, quando houve o embate. Resgatei-te de entre os escombros. Tinhas sido atingido por sete flechas, nas costas. Resgatei também tua coroa, teu elmo e tua espada. Como a coroa se encaixava em tua cabeça, deduzi que eras o rei dos pretensos invasores. Tratei das tuas feridas com as ervas e poções que estou acostumado a preparar, e agora estás pronto para retornar ao teu povo e tentar retomar teu trono, que, a esta altura, já deve ter sido tomado por teu filho, se não usurpado!"
"Quanto tempo fiquei aqui?", perguntou o rei, timidamente.
"Todo um ciclo lunar. De uma lua nova a outra. Já se passaram vinte e oito dias."
"Estou fora há muito tempo... Se alguém escapou e retornou..."
"Improvável!" disse o homem da caverna. "Estúpidos como eram os teus súditos, se algum deles escapou do massacre, deve ter se perdido no caminho do retorno, ou foi feito prisioneiro pelo Rei do Noroeste. Estás só, e deves retornar o quanto antes. Esta noite mesmo!"
"Será uma viagem penosa..." disse o rei, lembrando-se da dificuldade que tinha tido, com todo o exército, para chegar até aquele lugar. "Não sei como preparar meu retorno!"
"Poderemos ir esta noite, se me deixares ir contigo!"
"Esta noite?" pasmou o Rei. "Mas são muitos dias de marcha..."
"Se partirmos ao anoitecer, o sol te encontrará dentro de teu palácio!"
O Rei arregalou os olhos. O homem só podia estar louco. Ele tinha feito o percurso, de seu reino até aquele lugar, em muitos dias... como poderiam retornar de tão longe em apenas uma noite?
"Deixas-me ir contigo?"
"Se não me pedisses, eu é que te pediria! Afinal, devo-te a minha vida, e eu ficarei grato e honrado se puder desfrutar de tua companhia, e só me sentirei justificado se te der o mais elevado posto no meu reino!"
"Não há lugar para mim neste lugar. Todos me desprezam, por causa de minha falta de beleza e de minha ciência. Sempre ajudei a todos, curando suas doenças, dando conselhos úteis para suas lavouras, desenvolvendo os conhecimentos... Mas eles preferem as superstições, desprezando a ciência racional. Além do mais, têm nojo de minhas cicatrizes, conseguidas nos campos de batalha, quando ainda era um menino..."
"Então vem comigo, meu amigo, e te darei o posto mais honroso de meu reino!"
O homem da caverna foi até a entrada da gruta e olhou para fora. Já estava começando a escurecer.
"Vamos, majestade. Pega tuas coisas e segue-me!" disse o homem da caverna, saindo pela porta.
O rei se apressou a recolher a camisa, a coroa,o elmo e a espada, que estavam no chão, junto à lareira, e seguiu o anfitrião, que já tinha saído da caverna e subia por uma encosta, até o topo do morro onde se encontravam.
"Não precisas chamar-me por título nenhum. És meu amigo. Chama-me apenas de Rúbio, que é o meu nome!" gritou, seguindo o outro, solina acima.
Detrás do topo da colina, sob a qual ficava a caverna de onde acabara de sair, o Rei Rúbio notou a existência de uma ravina com um matagal fechado. Já tinha escurecido e a noite de Lua Nova não deixava muita visibilidade. Ele seguia seu anfitrião apenas pelo som das fortes pisadas. Entrou no matagal, sem ver praticamente nada, e conseguiu aproximar-se do seu companheiro. Ele estava parado, mexendo nuns galhos amontoados. Sussurrou para o rei:
"Não faz barulho. Pode haver alguém nos arredores a nos perseguir. Apenas ajuda-me a descobrir esta coisa."
O Rei ajudou, tirando alguns galhos do lugar, até deixar totalmente a descoberto, com a ajuda do amigo, um objeto muito estranho.
Era uma estrutura que lembrava um pássaro, ou, antes, uma libélula gigantssca. Tinha um corpo cuja largura era a de dois homens, lado a lado. Na retaguarda, seguia-se uma longa cauda, estreita e leve. Nas laterais do corpo, havia quatro armações longas, planas e lisas, de algum tipo de tecido leve e macio, que o Rei Rúbio desconhecia. Eram semelhantes a asas, duas de cada lado. Uma adiante e outra logo atrás. Tinha também três pernas, estreitas e longas, que mantinham o corpo, semelhante a uma libélula, elevado, mais de um metro acima do solo.
"Sobe!" ordenou o dono do estranho objeto.
O Rei pisou numas nervuras existentes na lateral do que seria o corpo da libélula, e subiu, segurando os objetos que tinha trazido da caverna. Havia uma espécie de sela, dentro do objeto. Vendo que seu companheiro, subindo do outro lado, sentava-se sobre uma sela semelhante, fez o mesmo. Adiante da sela havia duas alavancas e dois pedais. Atrás, havia uma espécie de armário, um lugar para colocar pertences. Colocou ali os três objetos que o homem da caverna tinha resgatado co campo de batalha, e passou a imitar todos os gestos do outro. Mesmo no escuro, com a vista já acostumada à ausência da luz, podia ver o que seu companheiro fazia e imitá-lo.
"Pisa nos pedais à tua frente e força-os para baixo, um de cada vez. Junto comigo. Vai!" ordenou o misterioso inventor.
O Rei passou a pedalar, num ritmo que era marcado pelo dono do objeto: "Esquerdo, direito! Esquerdo, direito!..."
Logo as quatro asas começaram a se movimentar, ordenadamente, para cima e para baixo.
Depois de várias batidas de asas, a libélula começou a se erguer do chão. Logo estava bem alto, acima ainda da colina, de modo que o horizonte distante podia ser visto com clareza e nitidez.
O Rei viu as luzes das tochas que iluminavam as casas do Reino do Noroeste, e pôde ver, também, à distância, várias outras luzes, que indicava a existência de cabanas isoladas, povoados e acampamentos. Depois de mais alguns comandos e movimentos encetados pelo dono do objeto, a libélula passou a voar para a frente.
O Rei estava tão entusiasmado com a idéia de voar, que não cessava de lançar exclamações.
"Dize para que lado fica teu reino!" falou o dono da libélula artificial.
"A sudeste!" disse o Rei.
Orientado pelas estrelas, o homem da caverna dirigiu a nave para sudeste e seguiram voando naquela direção. Após uma hora de vôo, surgiram as primeiras luzes do palácio do Rei Risonho. Mais algumas horas, e eles estavam pousando silenciosamente sobre a torre principal do palácio. Ali ficava o aposento real.
Sob a indicação do inventor, o rei ajudou a desmontar a máquina de voar e escondê-la dentro do primeiro quarto do alto da torre.
"Aqui serão teus aposentos! Os meus são do outro lado!", sussurrou o Rei, tentando evitar acordar alguém do reino.
Cada um foi para seu quarto, e logo estavam dormindo. Como o Rei ainda não era casado, não havia ninguém em seu quarto, para notar sua chegada de volta naquela noite.
