Tenho saudade dos não poucos loucos que cruzaram as mesmas estradas que eu percorri, ao longo do mapa espaço-temporal a que chamamos "vida".
Loucos como eu, que se atrevem a discordar do senso comum, mesmo sabendo que há o risco de ser perseguido pela Santa Anta da Inquisição dos acomodados, dos coniventes e condescendentes que, por interesse e conveniência, não entendem, mas silenciam, embora não vendo a lógica das proposições dos espertalhões, e dizem até crer piamente na salada de idéias tortas, incoerentes, improváveis, e se provadas, inúteis; salada que tem o apelido de Ciência.
Tenho saudade de John Lennon, não tão louco quanto eu, mas bem mais atrevido, que ousou desafiar os poderosos, lutando pela Paz, com as únicas armas válidas que existem: a idéia e a palavra. Um irmão, cuja transferência súbita para um universo paralelo me fez sentir, pela primeira vez, a dor de saber que nunca mais veria alguém.
Tenho saudade de um louco, chamado Jesus, meu colega de molecagens de rua, misto de índio e crioulo, de família pobre de dinheiro e rica de espírito (não estou falando de "espírito", como certas seitas citam, mas de "espírito", como a essência do ser, a terceira pessoa do Ego, o Ego Criança, a imaginação, a criatividade, os sentimentos de justiça, de empatia e de solidariedade unidos num só Ego). Jesus era um inventor nato, criador de tratores de madeira em miniatura, de lanchas de madeira, movidas por motores de antigos relógios despertadores, que ele conseguia programar, para que os pequenos barcos fizessem volteios nas poças de água e nos igarapés, fazendo-sa seguirem exatamente para os destinos que ele mesmo determinava. Um engenheiro sem diploma, um criador de um mundo ideal, tão bom e perfeito, que transcendia a dimensão física conhecida.
Tenho saudade de outro louco, Arrinaldo Andrade, cuja loucura estava na genialidade de um desenhista perfeito, com suas figuras de caubóis super-heróis e pinu-ups, que me enchiam de admiração e inveja. Eu me considerava um bom desenhista, mas ficava paralisado de admiração quando via Arrinaldo traçando, com sua canhota mágica, a estrutura daqueles personagens que pareciam mover-se, sozinhos, com agilidade e precisão, nas páginas dos cadernos escolares. Curiosamente, a última vez que o vi, foi quando concorremos para um emprego de desenhista publicitário, quatro anos depois de eu ter me mudado de Guajará-Mirim, e Eu ganhei a vaga. Não acreditei que poderia vencer aquele artista numa concorrência.
Tenho saudade de um louco chamado Paulo César Sales de Santana... Louco, não porque discordasse das idéias preestabelecidas, ou porque tivesse o mesmo grau de sã insensatez que eu, mas porque tinha coragem de andar em minha companhia, divertindo-nos com as garotas e passando trote nas lojas do centro de Maceió.
Tenho saudade de um louco chamado Ivanhoé, que insistia em reprovar no colégio, em Guajará-Mirim, e a quem eu reencontrei, muitos anos depois, em Porto Velho, como um pequeno empresário, e, depois de perdê-lo de vista novamente, reencontrei-o, mais uma vez, muitos outros anos depois, em Brasília, onde era um bem-sucedido corretor de imóveis, enquanto eu não passava de um acomodado funcionário público.
Tenho saudade de um louco chamado Geurgetown Félix de Araújo, um louco sensato, filósofo de balcão, a quem não vejo há muito tempo, mas o encontrei na Internet, falando sobre a Teoria das Cordas.
E de outro louco, chamado Aristeu, que fez mil presepadas, e até se julgou Deus, em algum momento... mas, que, no fundo, era um sujeito difícil de se fazer compreender, pela originalidade de suas idéias.
E de outro louco, chamado Moisés, que fez muito mais loucuras ainda; que conseguia ser mau-caráter e ainda assim não deixava de cativar as pessoas. Era um anti-herói, no sentido mais preciso.
E de outro louco, chamado Maximiliano, que, quando se irritava, dava fortes tapas no próprio rosto, preferindo machucar-se a ferir as pessoas que o provocavam.
E de outro louco, chamado Laert, dotado de uma sagacidade e de um senso crítico muito porfundos, mas que ousava desafiar os protocolos, firmando sua opinião, quando tinha certeza do que afirmava. Um grande louco, com quem só recentemente voltei a ter contato, pelas teias eletrônicas da Aldeia Global.
E de outro louco, chamado Eudes, que não conseguia se expressar direito, porque tinhas muitas idéias simultaneamente, e as embaralhava, na hora de apresentá-las.
Tenho um certo dom, de me afinar mais com as pessoas que ficam fora dos sistemas estabelecidos, e acabo sendo considerado uma espécie de louco, também.
Mas, mais do que todos os loucos, tenho saudades do louco que um dia eu fui, antes de me acovardar e me sentar na mesa dos acomodados, pressionado pela ignóbil e vil necessidade de sobrevivência pelo dinheiro e pelo emprego.
